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20/09/2021

Histórias da nossa terra

Imagens e fazeres

Traços de territórios – uma batalha artística

Fabricio Urbaneja, Milena Paulina e João Galera | Foto: Eriba Filmes

São Caetano do Sul e Itaquaquecetuba. Duas cidades, cada uma em uma ponta da Grande São Paulo. O que elas têm em comum? Além de orbitarem a metrópole paulistana, é possível reconhecer em ambas um passado similar: a forte presença afro-indígena que foi violentamente sufocada pela colonização, apagada das narrativas históricas e invisibilizada nos territórios pelas construções que se sobrepuseram com o crescente processo de urbanização.

Essas duas cidades são frequentemente nomeadas com um certo perfil de cidade-dormitório, acolhendo a morada de muitos trabalhadores que exercem sua jornada diária na capital. Fator que favorece o desconhecimento e a falta de vínculo dos seus moradores com a realidade, as histórias e a cultura da região.

Itaquaquecetuba, abreviada para Itaquá, tem nome indígena de origem Tupi que pode significar “lugar abundante de taquaras-faca”. Localizada às margens do Rio Tietê, tinha seu território originalmente muito fértil mas hoje convive com a poluição do rio e algumas problemas característicos de muitas das cidades que margeiam a metrópole.

Em São Caetano do Sul, que integra a região do ABC paulista, também podemos encontrar os resquícios de um passado afro-indígena, com forte influência da migração nordestina e da realidade operária. Atualmente composta por vocações diversas, a cidade ainda carrega forte presença industrial e mesmo com seus fatores de desenvolvimento também apresenta desigualdades.

Duas cidades ao mesmo tempo tão diversas e tão próximas. E como criar uma ponte entre essas realidades? Este foi o desafio proposto a três artistas da região, retratar um local de São Caetano e um local de Itaquaquecetuba de acordo com seu olhar.

Os olhares de cada artista sobre o seu território e sobre o território estrangeiro foram colados em espaços públicos das duas cidades através da técnica de “lambes”, com cartazes colados nas paredes criando uma verdadeira “batalha” de narrativas, histórias e imagens sobre os locais retratados. Uma “batalha” diferente, que não cria separações mas unifica e cria pontes para combater nestes territórios o apagamento da memória. Como resultado desta “batalha artística”, emerge a poesia das imagens, ilustrações, palavras e memórias.

O trio de artistas que toparam este desafio foi:

Milena Paulina (@olhardepaulina_), artista e fotógrafa de Itaquaquecetuba. Nas redes sociais suas obras são atravessadas por milhares de curtidas e elogios de alta identificação, e censura dos algoritmos, por envolverem nudez de corpos dissidentes.

Fabricio Urbaneja (@fabriciourbaneja), artista de São Caetano do Sul, trabalha com desenho, gravuras, monotipias e todo tipo de experimentos com papel, inclusive fazendo seu próprio papel.

E por fim, representando a cidade de São Paulo, o artista João Galera (@joaogalera) que cria a partir do desenho e outras técnicas e linguagens, e tem como um dos focos do seu trabalho justamente desenhar construções da cidade antes que essas sejam derrubadas pelo avanço da lógica mercantilista do mercado imobiliário.

Para o desafio, João visitou as duas cidades, como estrangeiro, residente da capital que liga os dois territórios. Nelas, ele buscou por espaços que os próprios moradores indicaram.

Em Itaquaquecetuba, retratou a pista de skate da cidade, indicada por uma moradora como um local importante de convivência. Aproveitando da liberdade do desenho, ele colocou, no muro da pista de skate, um grafite que na verdade está localizado na praça central da cidade.

Em São Caetano, ele caminhou pelo histórico Bairro da Cerâmica e retratou a vista do Parque Tom Jobim, em que se vê uma chaminé. No muro, inseriu os azulejos contando a história do bairro, mas que na realidade estão originalmente localizados em uma outra praça. O desenho possibilita deslocamentos e imaginários.

Já Fabricio, como artista local de São Caetano, escolheu um espaço que é frequentador assíduo, a Casa de Vidro – um ateliê aberto de gravura, cerâmica e experiências em papel, que faz parte do complexo da Pinacoteca de São Caetano do Sul.

Ali trabalha João Tessarini, artista e gestor do ateliê, e com ele o “Hib”, o pássaro híbrido, um boneco feito de diversos pedaços de materiais que faz parte de histórias fantasiosas e que, segundo Fabrício, é um personagem que pode inspirar mais imaginação para uma cidade por vezes tão quadrada.

Já em Itaquaquecetuba, movido pelas histórias vivas que permeiam os lugares, partiu de um ponto que cruza com São Caetano do Sul: a memória e invisibilidade histórica dos povos originários. Em sua arte vemos uma cidade que se constrói diante de um homem indígena.

Milena, trazendo a visualidade da câmera analógica para o olhar, retrata Itaquacetuba através do rio altamente poluído que corta a cidade, o Tietê. Ela nos convida à reflexão com a pergunta: “Que mãos mataram esse rio?”.

Questionamento semelhante aparece para São Caetano do Sul através da imagem de paralelepípedos, característicos de alguns parques. Fazendo alusão ao trabalho escravo afro-indígena que atravessa a história da região, traz o questionamento: “Que mãos construíram essa cidade?”,

Nas duas propostas, a pergunta tenta alcançar as histórias não contadas dessas regiões e aponta a responsabilidade das violências que fazem parte da memória destes territórios.

Em São Caetano do Sul as artes foram instaladas nas paredes do Sesc São Caetano e na Estação Jovem, espaço público que realiza ações na área cultural. Em Itaquaquecetuba os “lambes” foram colados nas paredes da Secretaria da Cultura de Itaquaquecetuba.

Batalha colaborativa

Se o título “batalha” sugere um duelo sangrento, na prática é só uma brincadeira. Faz alusão às batalhas de arte urbana, mas que aqui ganham um ringue colaborativo no qual vence, na verdade, quem consegue colar suas artes antes da chuva. A intenção foi construir uma ponte de cooperação entre os artistas e seus territórios, desde a troca de conversas e impressões sobre os locais até a colagem, propondo olhares diversos e narrativas imaginadas.

Secretaria da Cultura de Itaquaquecetuba | Foto: Eriba Filmes

A efemeridade do lambe, ao ser colada no concreto, torce a permanência e nos coloca diante de algo temporário. Tanto o concreto quanto o lambe são atravessados pelas marcas da parede com a cola e o papel ruindo aos poucos. Não sabemos até quando vai existir.

A arte urbana nos lembra da ação direta e da resistência, não do material, mas da imagem, da palavra e dos sentidos. E se há uma batalha, é a de tentar resgatar as narrativas invisibilizadas e sabotar os atropelamentos que podem existir na história e no cotidiano de uma cidade. Aqui, a ponte entre artistas e novas narrativas para a cidade segue firme, mesmo pelas brechas.

Sesc São Caetano | Foto: Eriba Filmes

Com a concepção e produção da Betina de Tella, cientista social e educadora de tecnologias e artes do Sesc São Caetano, e da Jane Eyre Piego, antropóloga e animadora cultural do Sesc São Caetano, a atividade resultou em intervenções urbanas nas duas cidades com a colagem dos “lambes”, integrando a programação do Circuito Sesc de Artes – Praças Digitais. Todo o processo

de criação dos artistas foi registrado em um webdocumentário produzido pela equipe da Eriba Filmes (instagram.com/eribafilmes). O vídeo tem sua exibição nas redes do Sesc São Caetano dentro da programação digital do evento. É possível assisti-lo em:

E você, já olhou para as ruas e muros da sua cidade hoje? Conta pra gente, o que você vê? O que você lembra? O que você sente? Quais os traços do seu território?

Circuito Sesc de Artes – Praças Digitais

O Circuito Sesc de Artes, frente às adversidades impostas pela pandemia de Covid-19, voltou em 2021 com um novo formato: o de Praças Digitais. Shows, espetáculos, bate-papos, cursos, oficinas e muito mais, em diferentes redes sociais e plataformas, tudo on-line e gratuito. A programação contempla artistas e grupos de diferentes regiões do estado que realizam intervenções nos espaços públicos, buscando estabelecer diálogos com a comunidade, discutindo formas de habitar as cidades, e refletindo sobre suas dinâmicas sociais e memórias coletivas.

Durante 12 dias, de 8 a 19 de setembro, mais de 250 programações aconteceram nas redes digitais do Sesc São Paulo, de unidades do Interior, Litoral, Grande São Paulo e do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, envolvendo 157 cidades e mobilizando mais de mil artistas.

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