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Sirimin Caiçara

“Nunca mais, mesmo que se acabe o mundo, deixará de haver, para vocês e em mim, o riachinho Sirimim”.

Meu Rosa encantado, também tenho um Sirimim que se chama Itaguaré. Nasceu de duas mães, filhas da Serra do Mar: cachoeira do Poço Verde e Cachoeira Ribeirão dos Monos.

As águas da cachoeira do Poço Verde são engrossadas pelas do Rio dos Bagres, do Rio Vermelho de Cima, Rio Vermelho de Baixo e Rio dos Alhos. Juntas, formam o Rio Indaguaçu e serpenteiam até encontrar as águas do Rio Perequê- Mirim, formado pelas águas da Cachoeira do Ribeirão dos Monos e corichos de serra. Os dois rios unem-se no poço formado pela confluência das águas que se abraçam e formam o Rio Itaguaré que se derrama no mar em belezas desde o começo dos tempos.

Minha incorporação ao Itaguaré obedeceu ao ciclo da vida. Nascimento e primeira infância deram-se no Poço da Pedra, primeiro acampamento de pesca do meu pai, onde já se percebe espuma e salsugem e ouve-se o fragor das ondas contra a praia. Depois, próximo à primeira fase da adolescência, na então casa da pesca, situada na embocadura do rio, de onde já me aventurava algumas curvas rio acima remando canoa ligeira. A mesma que meu pai usava para navegar o Indaguaçu ou Perequê-Mirim em busca dos porcos queixadas e ainda não me levava, o que me fazia, no meio da tarde, sentar-me ao barranco com os olhos pregados na curva do rio à espera da canoa apontar trazendo as novidades da caça.

Um pouco mais taludo, acompanhando meu velho, recebi as lições do Itaguaré e seus formadores, curva a curva, poço a poço . Sozinho, muitas vezes tudo repeti. Não por necessidade. Por gosto.

Quantas noites subimos o Itaguaré remando silenciosamente sondando tainha na escuridão, iluminados por uma infinidade de estrelas e, quando uma caía, em prece muda, pedia que o momento ficasse em mim como bronze porque pai e filho eram unidade e aquele rio tinha a dimensão e o mistério do Jordão.

Quantas manhãs encheram meus olhos de beleza e minh’alma de sossego, remando aquelas águas de fundo de areia clara perto da serra, acompanhado de cardumes de acarás e robalinhos, ouvindo a passarada alvoroçada pelo intruso deslumbrado. Remava esperando café e abraço de Zé Gambá, no rancho coberto por folhas de guaricanga aos pés da serra. Sei de um rio e como sou de suas águas!

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Texto do escritor Miguel Bichir, extraído do capítulo “Ovo Colorido”, do livro Memórias Sentimentais da Aldeia de Bertioga.

Foto: Cadu de Castro

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