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ARTE NA RUA PARA TODAS AS PESSOAS

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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Senhor das mortes

Aconteceu lá em Jaú. O nome era Coriolando Rodrigues de Lima. Foi em meados dos anos de 1940 que o jovem rapaz começou a circular pela cidade, sempre acompanhado de seu cavalo branco “Sereno”. Aos olhos de quem passava o cavalo chamava a atenção. Seu fiel escudeiro era um pedaço grande de bambu, enfeitado com retalhos de tecido colorido. Criolando, como ficou conhecido, era parte do dia-a-dia dos moradores.

A cidade da terra roxa, próspera produtora de café no auge das exportações brasileiras, tinha um clima pacato e Criolando logo se tornou conhecido de todos. “Ele não batia bem da cabeça” diziam alguns. As crianças da cidade logo passaram a aguardar a passagem do homem do cavalinho para zombar dele.

Não fosse um dom peculiar, teria sido somente mais um jauense. Diz-se que depois de receber a visita de um anjo, Criolando começou a prever mortes. Batia palmas na porta de alguma casa com jardim e pedia flores “pro velório do meu irmão que faleceu”. Em seguida ia à casa de outra pessoa, montado em “Sereno” e carregando as flores. Às vezes Criolando chegava para o velório antes mesmo que a família soubesse da morte. Chorava com uma profundidade de quem acabava de perder um membro da família, mesmo quando pela certeza de todos, nunca houvesse conhecido o falecido. “Meu irmãozinho, perdi meu irmãozinho”, lamentava. Andava sempre bem vestido, de camisa, paletó e chapéu, como mandava a etiqueta da época para ocasiões formais. Era amável e educado com todos e apesar do peso de trazer sempre a notícia da morte, era adorado por onde passava.

Criolando faleceu no começo dos anos 80, em São Paulo. O prefeito mandou logo trazer seu corpo de volta à cidade para ser enterrado no cemitério municipal. Mesmo hoje não é difícil ouvir histórias dos moradores mais antigos sobre alguém que conhece alguém que conheceu Criolando. “Ele era vizinho da minha avó.”, “Tomava café na casa da minha tia”, “Pediu flores para minha prima uma vez”. Tornou-se tão parte da cidade quanto a terra roxa. O velório municipal hoje leva seu nome. E as histórias de sua vida, continuam vivas na boca do povo.

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Texto: Juliana Ramos | Ilustração: Aldo Comito Junior