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ARTE NA RUA PARA TODAS AS PESSOAS

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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Muito prazer, meu nome é Zé Pereira

Olá, tudo bem? Eu sou o Zé Pereira, e se você mora, morou ou já passou algum carnaval em São Bento do Sapucaí com certeza me conhece. Nos trinta dias que antecedem o carnaval sou reanimado pela batida do tambor: Tum, tum, tum. TUM, tum, tum, tum!

Hoje decidi despertar do sono a que me dedico entre os meses que separam uma folia da outra para contar um pouco de minha história. De onde vim? Tenho muitos primos portugueses e espalhados pelo Brasil. Aqui em São Bento nem mesmo eu me lembro direito quando nasci. Mas garanto ter saído às ruas em comemoração ao fim da segunda guerra mundial em 1945, isso quando já tinha um tanto de história pra contar. Estes fatos fazem de mim um senhor quase centenário e cheio de disposição.

Dizem por aí que minha aparência foi inspirada em um antigo morador, conhecido pelo apelido de Chico Minas. Um homem muito alto, com mais de dois metros de altura e todo exagerado: boca larga, orelhas grandes, nariz preponderante e um tanto desengonçado.

Fraque e cartola: minha roupa é de coronel, mas na verdade é o povo que faz a festa comigo! Houve uma época em que eu fumava um enorme charuto, mas o tempo passou, as coisas mudaram e por orientação da criançada eu deixei o velho hábito. Também troquei meu dente de ouro, afinal, quem mais usa dente de ouro hoje em dia? É importante se modernizar!

Bom, vamos a mais um pouquinho de minha história. Quando era jovem, meu corpo era feito por um balaio de bambu trançado e minha cabeça esculpida em barro. Sobre este molde, tiras de papel eram coladas com grude de farinha de trigo, logo, virei um cabeça dura. Para cuidar da pele, usava uma mistura de clara de ovo e tinta em pó. Naquela época não existia verniz e se eu tomasse chuva essa mistura garantia que eu não perdesse minhas cores.

Dois dos meus escultores mais antigos também foram responsáveis por outra façanha incrível para os moradores da cidade: escalar pela primeira vez a Pedra do Baú. Os irmãos João e Antônio Cortez, à custa de cordas improvisadas venceram a impossível escalada e conquistaram o alto da pedra. Lá, com o financiamento de um importante empresário, instalaram os grampos de ferro que ainda hoje servem de escada para quem quer conhecer a vista de um dos pontos mais altos do Vale do Paraíba e ergueram uma casa que contava inclusive com captação de água da chuva. Até algumas décadas atrás ainda era possível ver as ruínas da casa, e hoje apenas alguns sinais de seus alicerces podem ser vistos por quem sobe a pedra.

Bom, como toda pessoa, chegou um momento da vida em que cansei de ser sozinho. Pelos idos dos anos 50 encontrei minha cara metade, para minha sorte, tão espalhafatosa quanto eu: a Maria Pereira. Desta época me lembro das primeiras televisões que chegaram à cidade, e de como as pessoas se reuniam na casa dos vizinhos para assistir à programação em preto e branco. Quando faltava lugar na sala, o povo se aglomerava na calçada mesmo, para ver a programação através da janela.

Maria Pereira e Zé Pereira

Depois disso, a família começou a crescer! Chegou meu primogênito, o Kiko e uns vinte anos depois a Mariazinha, caçula da família. Hoje somos nós quatro e mais alguns agregados. Todo carnaval saímos juntos, seguidos por uma multidão em festa.

Kiko e Mariazinha, filhos do casal Pereira

Tem muita gente que trabalha para me deixar assim, todo bonitão para o carnaval. E quem me dá energia para dançar pela cidade é o povo, que faz fila para me dar pernas! Houve uma época em que só quem já havia bebido um pouco além da conta conseguia ser Zé Pereira por alguns minutos, tamanho era o calor e o desconforto. Hoje fiz uma dieta, fiquei mais levezinho, para ajudar o povo a brincar carnaval com menos esforço físico. E é a maior disputa para ‘ser eu’. A cada quarenta minutos mais ou menos um folião se reveza para ajudar a fazer minha dança.

O tempo passou e a cada ano minha fama foi se espalhando pela região. Hoje as famílias usam fantasias inspiradas na minha família de bonecões. E vale tudo! Vestiu a criança dentro de uma caixa de papelão colorida e lá vai mais um ‘zé pereirinha’ correndo atrás do bloco.

Durante todo o mês que precede o carnaval é assim. Das sete até às dez da noite minha família e todos que gostam de mim cruzam as ruas de São Bento do Sapucaí ao som dos tambores. Quando chega a hora de ir embora, não dá pra fechar as portas do casarão que me abriga até que a última criança venha se despedir de mim. Eu me considero um boneco muito feliz, por poder levar alegria para tanta gente por tantas décadas.

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Texto e fotos: Mariana Krauss