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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Manjuba nossa de cada dia

A pesca da manjuba é uma das principais fontes de renda de Iguape. A maioria dos pescadores do município trabalham somente com a safra da manjuba, que vai de outubro a março. A grande quantidade da espécie nesta época atrai até mesmo quem não sobrevive da pesca, mas busca na atividade uma forma de aumentar a renda familiar. Tanto esforço pesqueiro, no entanto, ameaça a pesca da manjuba na Região.

A cada safra, a produção vem diminuindo. Não se pode negar de que há uma exploração excessiva de manjuba, mas reduzir a atividade dos pescadores é praticamente impossível. A pesca é uma das poucas alternativas de geração de renda que resta para a população litorânea no Vale.

A manjuba do litoral de Iguape não existe em outro lugar do mundo. Já foram encontrados alguns exemplares no litoral da Bahia e no Sul do País, mas em quantidade comercial a Anchoviella lepidentostole (seu nome científico) ocorre apenas em Iguape. Por isso, ela tem tanto valor. Não só comercialmente, mas pela própria diversidade marinha existente nessa região. Esse peixinho que não mede mais de 15 centímetros é o ganha-pão de milhares de pessoas há muito tempo. A profissão passa de pai para filho há muitas gerações.

A história do pescador Adilson Lemos da Conceição confirma esses dados. Filho de pescador, ele seguiu a profissão do pai, com a qual sustenta suas duas filhas. Adilson pega no batente às 2h da madrugada e tem dia que só larga às 6h ou 7h da noite. “… se não faço assim, deixo de comer”, conta o pescador com voz baixa e cansada.

O rosto queimado de sol, as mãos rústicas, calejadas com o peso da rede, dão conta de uma história que começou em 1995, quando ele se integrou à Colônia de Pescadores de Iguape e começou a trabalhar para quem comercializa as manjubas. A atividade regularizada ajuda na organização do trabalho e na proteção da reserva, não possibilitando, por exemplo, a pesca em tempo de desova dos peixes. Segundo Adilson, esse é o período mais difícil, pois sem a atividade da pesca, sobram apenas pequenos bicos na área da construção para o sustento pessoal e familiar. O Ibama paga o seguro defeso aos trabalhadores que precisam interromper a pesca nessa época.

Aos 37 anos, Adilson, que nasceu sobre as águas do velho rio Ribeira, não cansa de se encantar com o lindo pôr do sol na região de Iguape, e mesmo com as notícias de diminuição da pesca por causa de tragédias como a tromba d’água que atingiu Itaoca (jan/2014), afetando a pesca em todo o vale do Ribeira, inclusive da manjuba (espécie mais afetada com o grande volume das águas) não deixa de acreditar no oficio diário, de lançar as redes e puxá-las, trazendo nas pequenas embarcações o sustento diário para ele e sua família.

Histórias com a de Adilson se multiplicam ao longo desse rio, e dão a tão saborosa manjuba um sabor ainda mais especial, porque pescada por pessoas que apesar das dificuldades defendem a natureza e a pesca artesanal. E os perigos são iminentes. O Valo Grande, por exemplo, contribuiu para diminuir muito a pesca na Região, e independente do defeso, moradores defendem a abertura do Valo. E a possibilidade de construção de barragens no Rio Ribeira assusta os pescadores. A quantidade de chuva condiciona a vazão, que por sua vez condiciona a entrada da manjuba no rio e a sua reprodução. Uma barragem impediria que se completasse o ciclo produtivo desse peixe, causando um verdadeiro desastre ecológico e um grande problema econômico-social na Região. “Se acabar a manjuba, acaba Iguape”, dizem os pescadores que como Adilson, não saberiam viver outra vida que não a de pescador.