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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Linhas da história – O Museu de Ibitinga

Museu e Arquivo Histórico Municipal Duillio Galli. Foto: Danilo Silva

Só quem já tentou colocar uma linha na agulha sabe que costurar não é uma tarefa fácil. É preciso ter paciência, concentração e muita precisão. O fio de tecido teima em desviar o caminho, às vezes dá uma travada e até se divide em dois. Com as linhas do tempo o processo é parecido. Se fôssemos criar um desenho que representasse os caminhos das várias histórias que presenciamos, a imagem seria bem confusa. E nesse emaranhado de linhas que seguem paralelas e se cruzam, por diversas vezes – e por meio do Circuito Sesc de Artes – nos encontramos na cidade de Ibitinga. 

Com pouco mais de 60 mil habitantes, este município é muito visitado por pessoas em busca de itens para compor o enxoval, pela sua vocação têxtil, sendo considerado a Capital Nacional do Bordado. Mas para além dessa habilidade, outros tipos de traços desenham a história da cidade. Quem caminha por lá vê obras de arte espalhadas pelas praças e também encontra um Museu Municipal – o Museu e Arquivo Histórico Municipal Duilio Galli –, que tem um acervo muito rico, com trabalhos de artistas como Tarsila do Amaral, Alfredo Volpi, Aldemir Martins e do próprio Duilio Galli, que ajudou na criação do museu, com obras que juntou por meio de doações de seus amigos. 

Fundado em 1971, após muitos anos transitando entre prédios públicos e com pouca atenção para o seu acervo, o museu está entrando agora em uma nova fase, entrelaçada com a história de Júlia Estronioli. Historiadora e atualmente coordenadora de Espaços Culturais da Secretaria de Cultura da cidade, a ibitinguense aprendeu desde cedo a dominar a arte de costurar passados, desembaraçar o tempo e bordar histórias. E foi com ela que conversamos sobre a cultura, a arte e as memórias de Ibitinga. 

Quer bordar com a gente? Segue o fio… 

“A arte não foi feita para enfeitar paredes e nem para tornar o artista rico ou famoso. Mas, sim, para levar ao mundo algo que eternamente transmita” – Duilio Galli

Pra começar, fale um pouco sobre você e sua relação com a cidade de Ibitinga. 

Eu sou ibitinguense, nasci e cresci aqui e como muitos de nós, saí para fazer faculdade fora. Morei em São Paulo onde me formei em História pela USP e fiquei alguns anos trabalhando com a editora Quelônio e estudando preservação, conservação e restauro. Tem muita coisa que a gente só aprende saindo de casa, além da formação acadêmica, falo do valor que a nossa cidade tem e o quanto isso faz parte de quem nós somos. Por mais tempo que eu tenha passado fora de Ibitinga, e foram 13 anos, nunca Ibitinga saiu ou sairá de mim. Então, com todas as reflexões que o período da pandemia desencadeou em vários de nós, senti que era hora de voltar pra casa. E parece que foi em boa hora mesmo. 

Historicamente, Ibitinga é conhecida pelos bordados, enxovais, etc. De onde vem essa vocação? 

Sim, Ibitinga é a Capital Nacional do Bordado. Essa história é uma das pesquisas mais importantes que estamos levantando aqui no museu. Há um mito de que uma única mulher, a D. Dioguina Sampaio, uma imigrante portuguesa, teria começado o bordado na cidade e que a partir do sucesso dela outras empresas teriam surgido. Não temos fontes históricas que comprovem essa versão, sabemos que já existia bordado em Ibitinga antes disso, como existia em todos os cantos do país, e pela sua projeção, é possível que tenha sido D. Dioguina a primeira empresária do ramo. Mas há indícios de que a atividade tenha começado a ganhar esse viés econômico através de várias mulheres que precisaram ajudar a renda familiar depois da crise do café.

Os registros mais antigos que conseguimos até agora sobre o bordado em Ibitinga são uma propaganda de jornal de 1912 onde Maria Honório de Oliveira oferecia aulas de bordado, e uma foto da 1ª turma da Escola de Bordado da empresa Pfaff em 1935. Essa última tem um valor sentimental para mim pois nela está a minha tia avó, que dizia ter começado a bordar muito antes de D. Dioguina, e que inclusive vendia bordados antes de saber que ela existia… Minha tia avó não era a única. Há muitas histórias familiares que precisamos desvendar para entendermos quem foram essas primeiras bordadeiras e como viemos parar onde estamos hoje. Se D. Dioguina foi mesmo a primeira empresária do bordado na cidade, quem eram suas trabalhadoras? Essa é a pergunta que estamos tentando responder. 

Lembrança da Escola de Bordado, 1935. Foto: Danilo Silva

Como é a cena cultural na cidade? 

O setor cultural da cidade sempre se esforça pra trazer e criar novas atividades, mas ainda somos bastante carentes. Temos poucos equipamentos públicos, pensando no tamanho da nossa população, que agora com a atual administração parecem estar começando a desenrolar com a retomada das obras do Teatro Municipal e a aquisição e reforma do prédio antigo do C.R.I. (Clube Recreativo Ibitinguense) para a instalação do Museu do Bordado lá. Também tem tido um esforço interessante no sentido de ocupação das praças, tanto pelo poder público quanto por grupos e coletivos da cidade, com a descentralização das atividades culturais que promete bons resultados.

Existem alguns equipamentos privados como os bares com música ao vivo, o cinema e a ASSARI (Associação de Artes de Ibitinga) que oferece cursos de música e teatro e é atualmente a mantenedora da Orquestra de Metais Ignácio Corrêia de Lacerda.  No final a população fica restrita às poucas opções que tem, sem muita diversidade, mas principalmente agora com a pandemia mais controlada, estamos todos empolgados com o retorno dos grandes eventos. 

Fale sobre a história do Museu Municipal Duilio Galli. E por que ele tem este nome? 

O Museu Municipal existe desde 1971, foi uma consequência oportuna da criação do Conselho Municipal de Cultura em 1969, que tinha à época uma Comissão de Artes Plásticas e uma de Patrimônio Histórico e Museu, e da influência e projeção artística do pintor Duilio Galli. O museu nasceu com o setor artístico quando Duilio se dispôs a conseguir obras para abrirmos um museu de arte moderna na cidade. Ele conseguiu a doação de cerca de 70 quadros e esculturas com seus amigos e colegas de exposições. Dessa forma, conseguimos uma gravura da Tarsila do Amaral (que foi sua professora), uma do Volpi, do Ademir Martins… É um acervo artístico riquíssimo! Além dessas obras o Duílio também doou vários quadros e esculturas suas ao longo do tempo, como peças que ele expôs na Bienal Internacional de Artes de São Paulo em 1977.

Sem o esforço do Duilio, o museu poderia nunca ter saído do papel, ou nunca ter obras de tanto valor pra nossa arte. Seu objetivo era justamente este: fazer em Ibitinga um espaço que trouxesse a arte que ele via lá fora para que nós e nossos vizinhos da região pudéssemos ter acesso à diversidade artística. Hoje temos três setores dentro do museu: artes, história e arquivo, com documentos antigos vindos da Câmara Municipal, da Prefeitura e da população que sempre colabora doando tanto documentos quanto objetos antigos. 

Qual a importância do museu para a cidade? 

Infelizmente o museu passou muitos anos sendo jogado entre um e outro prédio sem adequações para abrigá-lo, e sem nenhum profissional da área que soubesse como administrar ou cuidar do seu acervo. Estamos agora reorganizando todo o nosso acervo e pela primeira vez realizando pesquisas sobre ele e sobre a nossa história. A nossa missão é transformar esse espaço que estava um tanto abandonado em um lugar de cultura e arte, onde as pessoas possam vir para aprender sobre o nosso passado, e desenvolver sensibilidade artística.

Pra muita gente da cidade um museu é um gabinete de curiosidades, e arte é só arte clássica. Até mesmo as obras do Duilio, que todos reconhecem como o artista mais importante de Ibitinga, acabam sendo desvalorizadas pela falta de educação nessa área. Queremos promover exposições que instiguem o olhar do público e aumentem os questionamentos e debates sobre arte e história na cidade. 

Tem alguma obra, documento, material histórico que te chamou a atenção durante esse início de trabalho? 

Muita coisa! Assim que comecei a trabalhar no museu, cada peça que descobria eu dava pulinhos de alegria! Documentos de 1930, fotos de 1920, cadernos e documentos oficiais com os personagens que dão nomes às ruas da cidade… Entre tudo isso, encontrei uma obra do Duilio que nunca havia visto pessoalmente e que descobri ano passado pela internet. É marcante pra mim porque eu a bordei ano passado (eu faço bordados manuais) enquanto decidia voltar para cá. Chama “Brasil Holocausto 94”, uma gravura impressa em offset que fala sobre a crise do Brasil em 1994. Foi bastante impactante pra mim porque ela parecia falar do Brasil de 2021, e o Duilio tem uma citação que fala justamente sobre a arte como algo que está eternamente transmitindo. 

Obra Brasil Holocausto 94 de Duilio Galli (esquerda) | bordado da obra feito por Julia Estronioli (direita)

O que o público pode encontrar no museu? 

Eu ainda encontro coisa nova no museu todos os dias, então é um trabalho constante de descoberta do nosso acervo. Por hora consegui apenas começar a catalogação das peças históricas e fazer separação e guarda do nosso arquivo fotográfico e documental. Ainda não conseguimos começar a trabalhar com o acervo artístico, a não ser as obras de Duilio Galli, que compõe a atual exposição de artes. Essa exposição que inaugura a reabertura do museu, é uma exposição compacta, uma espécie de trailer das possibilidades que podemos explorar aqui. É um primeiro passo para irmos nos entrosando com a população e acostumando o ibitinguense que nunca foi a um museu com o que você pode encontrar nele. 

Além da exposição do Duilio, uma homenagem a esse grande artista que nos deixou em 2016, montamos uma exposição temporária composta com as obras contempladas pela Lei Aldir Blanc, um incentivo à produção artística da cidade. Uma das ideias dessa remodelação do museu é termos um espaço dedicado à exposições temporárias. Um espaço para que o visitante saiba que pode frequentar o museu, que ele não viu tudo o que tinha para ser visto, pois o museu é um espaço vivo e em constante mudança, assim como a nossa cultura e história.  

Na parte histórica, focamos nossa pesquisa nas primeiras décadas do século XX, quando algumas linhas gerais sobre a nossa história se delinearam, e na história do bordado, contada a partir da crise do café. A partir dessa reinauguração, vamos dar sequência à catalogação das peças e pretendo seguir com a pesquisa da história da cidade avançando nas décadas seguintes integrando a história do bordado, e das obras de arte da exposição original que o Duilio trouxe para o museu.

>> Se quiser visitar o Museu, ele fica ali no centro da cidade, neste endereço:

Museu e Arquivo Histórico Municipal Duilio Galli 
R. Cap. Felício Racy, 801 – Centro, Ibitinga – SP/ Brasil
Funcionamento:
Segunda a sexta, das 7h às 18h  
Sábados (a partir de setembro), das 8h às 14h

>> Conheça um pouquinho sobre Duilio Galli, acessando essa entrevista que ele nos concedeu em 2015: Duilio Galli – De Ibitinga para o mundo

Fotos: Danilo Silva
Texto: Ronaldo Domingues