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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Jongo: o avô do samba

A cidade de Guaratinguetá nasceu como ponto de abastecimento para os tropeiros que cruzavam a serra da Mantiqueira em busca do ouro de Minas Gerais. Guará viveu um apogeu no cultivo de café e foi entre os negros escravizados que trabalhavam nos cafezais do Vale do Paraíba que surgiu o jongo.

Com seus versos em códigos, os tambores festivos e danças, é considerado o avô do samba. “O jongo é uma forma de resistência da comunidade negra”, afirma Jefinho Tamandaré, mestre jongueiro da cidade que em 2006 fundou a Associação Cultural Quilombolas do Tamandaré. O jongo já foi muito perseguido e estigmatizado, mas atualmente é considerado patrimônio imaterial pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e venceu o preconceito, com a luta de pessoas como Jefinho.

O mestre nasceu em família jongueira, no bairro Tamandaré em Guaratinguetá. Gosta de dizer que frequenta as rodas de jongo desde a barriga da mãe. Quando criança assistia às rodas ao lado do avô, seu Dito Prudente e com ele aprendia a compor os pontos (as músicas com letras em código que dão ritmo ao jongo), tocar os tambores e dançar. Com 20 anos cantou um ponto de jongo de sua autoria na roda, no qual pedia licença aos jongueiros antigos para se tornar um deles de verdade.

“Saravá jongueiro velho
Que veio pra ensinar
Que Deus dê a proteção
Pro jongueiro novo
Pro jongo não se acabar
Pro jongo não se acabar
Que Deus dê a proteção
Pro jongueiro novo
Pro jongo não se acabar”

Depois de entoar estes versos, passou a se sentir um jongueiro completo.

Segundo Jefinho, com o cultuar do jongo foi possível resguardar muito da história negra no país e assim, preservá-la. Através do jongo, que tem os seus pontos com dois modos de interpretação, os jongueiros os entendiam de um jeito e as pessoas ao redor da roda de jongo entendiam de outro. Esta era uma forma de passar mensagens e ao mesmo tempo protegê-las da perseguição nos tempos da escravidão. Com isso foi possível manter muitas memórias vivas até o nosso tempo.

“Aqui no bairro Tamandaré fazemos questão de sempre lembrar a todos sobre aqueles tempos de cativeiros, tempos difíceis, tempos duros, mas também tempos de demonstração de muita força e fé de um povo que nunca se entregou pra nada e que conseguiu trazer a sua história até os dias atuais através das suas rodas de jongo”, conta Jefinho.

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Texto: Mariana Kraus | Foto: Acervo Jefinho