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ARTE NA RUA PARA TODAS AS PESSOAS

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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Histórias de Ilha

Com olhar alegre e caminhar manso, Seu José Farias da Silva seguia rumo à Prefeitura de Ilha Solteira. Claro, fiquei curiosa, era cedo ainda, e puxei conversa com o distinto senhor. Pra minha feliz surpresa ele estava indo tomar um cafezinho. E ele disse que quase toda manhã faz isso. Aproveitei pra tomar um cafezinho também e descobri que, coincidentemente, havia encontrado um dos mais antigos moradores do lugar. Seu José chegou aqui em 1968, ano de construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, na época a maior do país. Ele veio do estado de Alagoas para trabalhar como barrageiro. Um trabalho duro, pesado, que hoje rende gratidão. “Eu ajudei a construir… até terminar”.

 

Ele conta que todos trabalhavam em turnos alternados, uma semana durante o dia e outra durante a noite, pra dar conta do serviço. O aposentado diz que viu o desabrochar do progresso de toda uma cidade. “Quando eu cheguei aqui tinha só mato. Vi tudo sendo construído”. A compra da sua casa, em 1969 é um dos marcos na história desse alagoano, que disse brincando que não pretende voltar pra lá!

Passear por Ilha Solteira, é ter contato com o antigo e o novo, com a história e a realidade das centenas de milhares de pessoas que deixaram seus estados para aqui edificar suas vidas. A cidade nasceu inicialmente para dar abrigo aos barrageiros que vinham de tão distante para a construção da hidrelétrica, sendo uma das poucas cidades planejadas do país. Contudo, a emancipação veio apenas em 1991. Já no ano de 2000, Ilha solteira foi elevada à categoria de Estância Turística.

A Praça Paiaguás é um ponto de encontro. Manhãs quentes parecem atrair os moradores mais antigos, afinal, por que não aproveitar pra jogar conversa fora? Encontrei por aqui gente que também veio de muito longe, assim como Seu José.

Em 1971 o Sr. Sebastião Joaquim Fialho saiu do Ceará em busca de uma nova vida. Perguntei como foi essa viagem, se ele trazia alguma mala, ainda que pequena, e ele brincou: “A mala era um saco e o cadeado era um nó”. E depois completou: “Vim só com a roupa do corpo mesmo…”.

A viagem foi longa, no caminho, dúvidas e esperança. Assim que chegou, seu Sebastião foi trabalhar na barragem da Hidrelétrica de Ilha Solteira. Trabalho pesado. O suor que lhe rendeu o orgulho de ver a barragem pronta também proporcionou ao simpático cearense a conquista da casa própria. Hoje, aos 68 anos, ele cultiva as velhas amizades.

 

Ele e Seu Luiz Gonzaga se conhecem de longa data. Seu Luiz também fez história na região, trabalhou como mecânico de máquinas na Usina de Três Irmãos, localizada entre os municípios de Andradina e Pereira Barreto. Contudo, foi em Ilha Solteira que ele fez sua morada, em 1981. Foram dezesseis anos de serviço prestado. O operário veio de bem longe também, da cidade de Goiana, em Pernambuco. E hoje, aos 66 anos, continua trabalhando viu?! “De 2011 a 2017 trabalhei como mecânico de máquinas na Usina de Belo Monte, no Pará. Isso é meu começo e meu fim… é minha vida”.

 

Texto e fotos: Pollyana Moda