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12 A 28 DE AGOSTO DE 2022

12 - 28 AGO 22

Da Banda do Quintino à Orquestra do Erê

“Você já viu alguém esperar o décimo filho para colocar o nome de Junior?” É com este causo que Quintino Bento (o Neto) começa a contar a sua saga musical na cidade de Tremembé. Assim aconteceu com o avô do músico, que somente no filho caçula decidiu passar adiante seu nome. O pai não foi tão paciente, decidiu que o primeiro filho já tinha cara de Quintino.

E lá se vão cinco gerações dedicadas à música. O avô de Quintino chegou à Tremembé em 1917, e a pedido do prefeito da cidade deu início à banda que teria o pomposo nome de Corporação Musical de Tremembé, mas acabou conhecida mesmo como Banda do Quintino, na ativa até hoje.

Foi neste grupo que Quintino cultivou seu encantamento pela música, tocando nas festas da região, nos carnavais de salão, em todo canto em que são chamados. De portas de loja a velórios. “Eu tenho três velórios no currículo!”, conta.

Nos anos 80 formou sua própria banda, que tocava rock e reggae. Um dia decidiu convidar a Congada da Imaculada de Taubaté, comandada pela capitã Joaquina, para participar de um show. E foi aí que se encontrou definitivamente com a cultura popular. Desde então se dedicou à pesquisa do folclore raiz valeparaibano e conviveu com os grandes congadeiros da região. Destes encontros gravou seu primeiro CD com canções congadeiras, em parceria com o mestre Lumumba, percussionista e construtor de tambores.

“Quando ficou pronto o mestre falou assim [engrossando a voz]: ‘Isso aqui dava bem é pra uma orquestra tocar”, conta. A ideia não lhe saiu da cabeça. Conseguiu que um amigo fizesse os arranjos para uma orquestra completa. Com as partituras na mão, procurou orquestras que pudessem tocar suas músicas. Porém, ouviu que nenhuma ia deixar de lado seu repertório tradicional para tocar aquelas músicas e se ele quisesse ver a peça executada teria que formar sua própria orquestra. O que poderia soar como uma derrota para alguns, para Quintino tornou-se um desafio. “Agora imagina como é que eu, que sou um caipirinha de Tremembé, que toca numa banda de música e é congadeiro, como é que eu ia montar uma orquestra?”

Decidiu pedir a amigos professores do projeto Guri, que ensina música clássica para crianças e jovens, que indicassem alunos para compor a tal orquestra. Assim, em abril de 2008, nasceu a Orquestra do Erê, para tocar só o repertório congadeiro com os instrumentos típicos da música clássica. A orquestra ganhou grandes palcos em festivais internacionais de música e premiações, sem deixar de tocar nas festas da região. Os projetos não param de crescer e dar frutos. Com o orgulho, Quintino declara: “Eu não nasci baiano, eu não nasci mineiro, nem em Nova Iorque, eu nasci no Vale do Paraíba, eu sou caipira!”.

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Texto: Mariana Krauss | Foto: Arquivo Quintino Bento