Aquilo é um trapézio? – Uma Pequena crônica do interior

A cidade amanhece com uma atmosfera diferente. Algo está acontecendo por aqui. As folhas no chão parecem querer disfarçar a quebra na rotina local. Cidade pequena é assim, todo mundo se conhece e sabe da vida de cada um. Sabe quem engravida, quem falece e tudo mais. O grito de amiga, busca as crianças atravessa o ar.

Movimentação estranha. Lembro de algo assim no ano passado.Mas as cores eram outras e agora parece ter mais gente. Parece até Festa de São João, que lota a praça. “Aquilo é um trapézio?”. Logo ao lado, uma imagem familiar.É Carlitos! Muito bom. Eu lembro quando ali, logo atrás da igreja, eram projetados filmes, destes antigos, direto na parede. A gente ria muito. De repente uma algazarra. São crianças. Muitas crianças. Todas com uniformes escolares. Livros começam a ser folheados por dedos curiosos e olhos aguçados. Assim vão de mão em mão. Do outro lado, brincadeiras são guiadas por cenas de cinema enquanto um varal se desdobra no horizonte. Nele, poesias são penduradas. Sim, poesias. Escritas em pequenos guardanapos de papel.O que vocês fazem de bonito?”, indaga uma senhora. E a resposta logo vem: Eu sou poeta e ele é artista plástico. Algumas vezes eu o provoco com palavras. Já em outras, ele me provoca com imagens. O resultado? Cartões postais que podem ser levados para casa e servir como recordação deste dia.

“Escuta! O folheto pode levar?”
– Pode sim!
”Mas entra sem ele?”
– desconfiado.

“Olha, a Lua”, alguém exclama. A cachorra mais famosa da cidade já está por aqui, seguindo seu dono ao menor passo dado. Outro ‘zum zum zum’. Aglomeração. Ouço histórias logo ali. Numa roda de pessoas, desejos são soprados enquanto pequenos grandiosos contos são narrados. São homenagens à diversas pessoas – reais ou não – encontradas em viagens feitas pela artista através do Brasil. A seu lado postasse um menino, que dizem estar mais empolgado do que a contadora. Um pequeno boneco salta nas mãos da moça. É o Pelé?” Não! É o seu Agripino.

“Saudades do teatro da igreja! Lembra da Dani, que adorava contar histórias?”.

Cheiro doce no ar. O som do DJ preenche o lugar.  Como num passe de mágica a fonte até então adormecida ganha vida, lançando jatos de água no ar. Ao som da música, as pessoas se deslocam para outras paragens. A tarde passa. Prenúncio de chuva no horizonte. Nessa hora, nada pode ser mais literal do que se ouvir Jazz ao pôr do sol. Bases sampleadas mesclam-se a estruturas orgânicas.

Hoje não vai chover!

A noite cai e com ela chega uma brisa refrescante. Tá até um friozinho, viu. Mas tá gostoso assim. Boa noite! Ora pois, boa noite. Você sabe que a noite vai ser boa quando Pessoa e Saramago decidem aparecer. No melhor e mais gostoso sotaque lusitano, histórias tragicômicas inspiradas pelos dois são desfiadas. Vem qui, eu conheço você!. Conhecidos a parte, todos embalam nos passos do funk com muito soul e groove. Corpos em movimento. Ali mesmo, uma grande festa se inicia. Até os balões infláveis do tiozinho parecem seguir na dança.

“É você que toma conta aqui?”, me pergunta um sujeito apontando para o pula-pula.
– Não. Acho que é o rapaz ali! – respondo apontando.

Do outro lado da praça a expectativa cresce.
Lembra do trapézio?

O local estava tomado! Para todos aqueles “que horas que vai começar?, chegou a hora. Eu não acredito que eles fizeram esse negócio aqui! Sim. Pura magia! Corpos se lançam no ar. Brincadeiras e muita simpatia. Risadas sinceras preenchem o ambiente. Palmas. Palmas e mais palmas. Ao fim da apresentação as pessoas se dispersam. Alguns vão embora. Já outros ficam mais um pouco. Amigos se encontram. Cidade pequena é assim, todo mundo se conhece e sabe da vida de cada um. Será que a amiga buscou as crianças?

Nossa, como passou o tempo hoje! A cidade adormece com uma atmosfera diferente. Algo aconteceu por aqui. Ano que vem as cores serão outras e pode ser que tenha mais gente. Pensar que ainda tem Festa de São João.

Será que vai ter trapézio?

Esta pequena crônica foi criada como um exercício de escrita ficcional, tendo como base as várias vozes ouvidas durante os dias do Circuito Sesc de Artes pelo interior do estado de São Paulo. Ela ilustra um pouco da atmosfera que acontece nos locais de realização do evento, não tendo uma especificidade definida. Pode ser a sua, a minha ou a cidade do outro.

Espero que gostem!

Escrito por:

Willian Lopes de Abreu

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