Uma santa em Tremembé

As paredes do Carmelo de Tremembé representam mais do que um abrigo. Elas são a separação física entre as monjas enclausuradas e o mundo. Lá vivem vinte e três mulheres com idade entre 19 e 89 anos que, sentindo a vocação religiosa, optaram por uma vida dedicada à oração. As paredes também foram testemunhas da vida da Madre Maria do Carmo da Santíssima Trindade, conhecida como Madre Carminha de Tremembé, uma religiosa que está em processo de canonização no Vaticano. Em busca desta história, fomos até o Carmelo para conversar com as irmãs mais engajadas no processo.

A entrevista aconteceu em uma das três salas reservadas ao contato com o mundo externo, chamadas de locutórios. Ao entrar no espaço, uma surpresa para mim: do outro lado de uma grade três irmãs sorridentes estavam sentadas, aguardando minha chegada. Eram a Irmã Regina, de 35 anos, a irmã Maria da Trindade, de 26, e a atual diretora da casa, Madre Thereza, de 85 anos.

Não faltou assunto para a conversa. De acordo com as irmãs, a Madre já tinha fama de santidade em vida. “A grande lembrança da Madre Carminha é a humildade. Era uma pessoa que não queria aparecer de jeito nenhum”, contou a Madre Thereza, que conviveu com a candidata a beata por nove anos.

Madre Carminha, natural de Itu, iniciou sua vida religiosa no Carmelo de São José, Rio de Janeiro, de onde veio com a missão de fundar o Carmelo da Santa Face E Pio XII em Tremembé. Foi ela quem definiu como seria a arquitetura do lugar, e também quem deixou um legado de conduta para as irmãs, sempre acolhendo muito bem as pessoas: “Ela ensinava na prática, pelo exemplo, e as pessoas gostavam muito”, relembrou a Irmã Thereza.

Durante sua atuação no comando do Carmelo, a Madre Carminha também iniciou uma obra social, por meio da qual eram confeccionadas e doadas roupinhas para bebês recém-nascidos. As irmãs do Carmelo sempre se dedicaram a atividades manuais, como a pintura a costura e a cozinha. Na época da criação do projeto, eram feitos lençóis para a venda, e com os retalhos destas peças eram feitas as roupinhas. A Obra do Berço continua em atividade até os dias de hoje, com roupas doadas e também fraldas de pano costuradas no Carmelo.

Madre Carminha é descrita como uma pessoa muito alegre e artística. Para os momentos de recreio dentro do convento, ela recitava os poemas, cantava, tocava violão e harmônio com as irmãs. Foi ela também que iniciou a tradição de fazer encenações teatrais dentro da casa.

Em 1966 a Madre faleceu após enfrentar muitas doenças. Passados alguns anos, o prédio do Carmelo começou a entrar num estado crítico de deterioração. Os muros estavam rachando, a hidráulica estourando e a fiação prestes a pegar fogo. Sem recursos para os reparos, foi decidido pelo bispo que a casa de Tremembé seria desativada, e todas as irmãs iriam para um novo Carmelo, a ser construído na cidade de Mairinque.

Estava decidido. As irmãs se resignaram com a mudança e ficou definido que os restos mortais da fundadora, que estavam no cemitério da casa, seriam transportados para Mairinque. Foi quando aconteceu algo impressionante: o corpo de Carminha estava totalmente conservado, como no dia em que havia sido sepultado.

A notícia se espalhou para a cidade e foi interpretada como um sinal de que o Carmelo deveria continuar em Tremembé. Houve uma comoção muito grande entre a população, que se mobilizou e fez um abaixo assinado pela permanência das irmãs na cidade. Foi o que aconteceu. As carmelitas mais jovens ficaram em Tremembé e passou a coordenar a casa a Irmã Thereza, que afirma ter sido este o primeiro milagre da fundadora.

“O povo chamava ela de santinha da ponte, por que o nosso Carmelo fica perto da ponte do Rio Paraíba”, contou a irmã Regina. Depois do ocorrido, a fama de santidade da Madre Maria do Carmo se espalhou pela cidade, e foram surgindo mais e mais relatos de graças alcançadas.

Uma das mais recentes é contata por Vera Makdisse, de 65 anos: “Minha filha estava na UTI com 32 quilos, por causa de uma bactéria que tinha infectado o estômago dela. O médico me disse: Dona Vera, se prepara por que ela não vai sair dessa. Eu disse que a Deus nada é impossível”. Após este diálogo, Vera ajoelhou-se ao lado do leito em que a filha repousava, fechou os olhos e começou a entoar em voz alta um terço inventado por ela: “Santa Carminha Cura, Santa Carminha Cura…”. Dia após dia ela viu sua filha ganhar algumas gramas por dia, e após oito meses ela recuperou a saúde, retornando ao trabalho e às atividades normais. “Para mim, Madre Carminha já é santa há muito tempo”, afirmou a mãe emocionada.

Diante de tantos relatos, decidiu-se levar o caso para reconhecimento pela Igreja Católica, em busca da canonização da Madre. Atualmente, o processo de beatificação se encontra num estágio avançado no Vaticano, onde as informações de vida e das graças relatadas estão sendo redigidas num livro oficial. Após a beatificação, inicia-se o processo de canonização, em que a Igreja atribui o título de santo ao postulante.

As irmãs se entusiasmam ao contar que recebem relatos de graças alcançadas até do exterior. São cartas e emails que chegam das Filipinas, Polônia, Espanha, França, Estados Unidos… E tem gente que diz que santo de casa não faz milagre!

Texto e Fotos: Mariana Krauss

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