Sonhar na prática

Cabelos completamente brancos e lisos, fala pausada e um brilho no olhar difícil de ignorar. Quem vê Dulce Maia subindo e descendo as ladeiras da cidade de Cunha, apontando para os lugares com uma bengala, pode supor seus 77 anos de idade. Mas é impossível vislumbrar os seus “300 anos de vida”, como ela mesma define o peso de suas experiências.

Realmente, conversar com Dulce rende material para muitos livros. O que contamos aqui é um pequeno recorte da intensa conexão de Dulce com a cidade.

A história desta sonhadora em Cunha começou ainda na infância. Ela conta que sua família viajava muito a Paraty, passando pela cidade. Muitas vezes quando eles chegavam em Cunha estava chovendo muito, e a condição da estrada impedia que a viagem continuasse. Foi nessas paradas que Dulce começou a se encantar pela cidade serrana, que ela já chama de sua há 25 anos.

“Eu morava em Florianópolis quando meu irmão Carlito adoeceu. Eu quis ficar perto dele e tirá-lo de São Paulo para ele ter um outro tipo de vida, longe da poluição. Então me mudei pra Cunha porque seria o lugar ideal para eu recebê-lo. Ele passou a vir pra cá durante anos, e durante 10, 15 dias ficava aqui comigo”, relembra.

Desde o início de sua vida no município, Dulce já fazia obras para servir a comunidade. Primeiro veio a Casa Abrigo, fundada por ela para dar um lar a crianças que passavam por problemas familiares. Depois, a Associação de Cultura e Educação Ambiental Serra Acima. Neste processo, foi surgindo a ideia de fundar uma escola profissionalizante na cidade, em um sítio de dois alqueires concedido pelo governo estadual.

O objetivo é construir no sítio uma escola de ensino pós-médio, que atenderá gratuitamente estudantes de Bananal à São Luiz do Paraitinga,com cursos de forte apelo na região, como hotelaria, turismo rural e gastronomia. “As coisas são difíceis, bem demoradas. Eu ainda não consegui instalar no sítio a escola. Mas há três anos atrás eu consegui instalar a escola aqui na cidade”.

Em um casarão colonial, Dulce lançou a semente da escola que leva o nome de seu irmão Carlito Maia. Carlito foi também o autor do lema estampado na parede externa da escola, que diz muito sobre o trabalho realizado lá:

RG imagem-meio-do-texto

Por meio de seu bom relacionamento com artistas e pessoas envolvidas com o meio socioeducativo, Dulce vem arrecadando doações e firma parcerias que dão vida ao projeto. Atualmente, o Senac oferece três cursos profissionalizantes na escola. São tantos interessados que tem até fila de espera para estudar lá.

Esta é a história de apenas alguns dos sonhos de Dulce, pelos quais ela faz questão de batalhar desde sempre: “Eu sonho muito, sempre sonhei. E continuo sonhando. Eu acho que o Brasil ainda vai dar certo”.

Sobre a cidade que a acolheu não faltam adjetivos, a paisagem, a proximidade com o mar, as festividades, a comida… Mas não há duvidas quanto ao principal predicado: “Há várias atrações na cidade, mas principalmente o povo. O povo é de uma bondade, de uma delicadeza, que é de um Brasil muito antigo. Isso me encanta”.
_
Texto e fotos: Mariana Krauss

Posts Relacionados

Comentários