Você não viu porque eu disfarcei com a câmera na frente do rosto a lágrima que escorria. Como eu não sou de chorar fácil, às vezes, na hora, me dá uma vergonha. Mas depois eu acho que te cumprimentei com um sorriso e, se não disse, pensei: “foi lindo”.

Você não viu mas eu percebi que aquela música que você tocou tinha tudo a ver com as conversas do ônibus, e mesmo que parecesse que você não estava ali, que parecesse que você dormia, você sabia. E aquela música era seu presente para todo mundo com quem dividia essa experiência. Eu gostei e, pelo que vi, os outros também.

Eu tive medo quando te vi se equilibrando em cima de coisas; da cabeça do seu colega, daquela tábua que rolava, do carro que esperava o sinal abrir. E foi com esse medo que eu aprendi a confiar no seu erro. A confiar que tudo ia sair bem porque você saberia pousar ou escorregar ou mesmo cair e levantar depois daquele mortal cabuloso.

Você não teria como saber que aquele é meu poema favorito. Te aviso assim, cifradamente. Aproveito e te aviso também que eu ficava à espreita esperando você tocar aquela música que eu ouço em casa toda semana.

Ah, não posso esquecer de agradecer por você ter tido tanto cuidado e atenção comigo e com as minhas piadas sem contexto (por via das dúvidas, aproveito para pedir perdão). E aquela comida, o sanduíche, o café depois do almoço. Não fosse a sua preocupação, eu não sei o que seria da gente.

E tem você que eu vi só uma vez, rapidamente, declamando um poema de sua autoria. Não conheço seu nome nem seu endereço, só que a gente se encontrou ali, quase por acaso.

Eu já te disse isso antes mas já que arranjei esse tempinho para abrir o coração, conto pra todo mundo a honra que foi dividir esse espaço com você que escreve assim tão bonito e que pensa umas coisas que eu não pensaria jamais (até porque, piadas sem contexto ocupam muito espaço na cachola).

Um dia eu até pensei em sentar do seu lado e perguntar se é normal que uma pessoa miúda como eu goste de tanta gente ao mesmo tempo. Não sabia que cabia. Mas se alguém te perguntar um dia, pode contar que você teve uma amiga que agora sabe que pode ser normal, sim.

Se eu te encontrasse no metrô, certeza que daria um abraço apertado que significaria algo que não sei como chama; tem palavra pra esse sentimento de ter vivido coisas maravilhosas com gente que pouco conheço?

Escrito por:

Bárbara Carneiro

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