Mestiço, o Zorro brasileiro

Aqui pelas bandas do Campo Limpo, uma lenda do cinema existiu em carne e osso. Montado em seu cavalo, com chapéu, botas que carregavam sua marca, um “M”, e seu chicote (que na verdade era só de enfeite), ele cavalgava pelo bairro. Era Mestiço – O Zorro Brasileiro. Ele tinha suas semelhanças com Don Diego de la Vega, mas carregava uma marca brasileira. Boêmio e muito galanteador, vivia rodeado de mulheres. Acredita-se que teve 15 filhos. Em sua família eram cinco, mas de vez em quando aparecia um agregado. Anarquista e rebelde, de descendência espanhola, Joaquim Antonio Padial foi apelidado de Mestiço depois que assumiu sua identidade de Zorro.

Sempre empreendedor, foi agricultor, dono de imobiliária, farmácia, fabricou portas e janelas, mas o que ele queria mesmo era ser cineasta. Seu primeiro filme seria, claro, “Mestiço – O Zorro Brasileiro”. Carregava em seu carro o emblema da cinematográfica Kayobá. Seu filho, o poeta Binho (ele mesmo, o do Sarau), conta que seu pai chegou a fazer algumas gravações, mas não deu certo. “Ele começou a gravar, mas veio o lance da inflação e ele ficou sem dinheiro nenhum, não conseguiu mais fazer o filme.”

O pouco estudo não intimidou Mestiço quando decidiu enviar uma carta para o Presidente da República, durante o governo Médici, numa época conhecida pelo auge das ações de repressão e tortura, instaladas com a Ditadura Militar. A mensagem tratava da importância dos adubos orgânicos e a criação da Embravoc, Empresa Brasileira de Adubos Orgânicos. “Ele só tinha o quarto ano primário naquela época, mas trabalhou um tempo com agricultura e tinha o conhecimento de algumas coisas. Hoje você vê as pessoas com muitos problemas. Falta um monte de outros nutrientes, porque a terra vai exaurindo. Então estamos tendo muitos problemas nos alimentos, você acaba tendo que suplementar”, conta o poeta.

As pessoas, porém, não entendiam muito bem as empreitadas do Zorro Brasileiro. Ele escolheu um campinho em frente à delegacia para fazer experimentos com o adubo, mas os moradores não gostaram da ideia. Binho se lembra da confusão que deu na época. “Ele começou a trazer as coisas e fazer o adubo lá. Tudo quanto é coisa, tranqueira de lixo orgânico, pintinho morto. Ficava um cheiro, um fedor. O pessoal começou a reclamar e ele teve que parar com esse negócio. Os ‘testes’ dele.”

A vida tinha lá seus altos e baixos, mas ele sempre foi tranquilo. “Meu pai sempre foi meio largadão. Ele não estava nem aí, era meio anarquista, mesmo sem saber nada de anarquia.” Binho lembra da época em que seu pai teve uma imobiliária. “Ele montou a imobiliária com o irmão dele. Meu pai teve a primeira farmácia do Campo Limpo, onde é a Casas Bahia hoje e depois ele montou uma imobiliária.” As primeiras casas do bairro passaram por suas mãos. “Eles compravam um loteamento e começavam a fazer a casa que loteavam. Meu pai fez mais de 2.000 casas na região, no Taboão também e no Pirajussara.”

O que ele tinha de trabalhador tinha de boêmio, gostava muito de sair à noite e no dia seguinte acordava tarde, mas mesmo assim ele “cumpria” suas obrigações. “Recebia as pessoas na cama. Lá pelo meio dia, uma hora, ele estava despachando.” Não havia nada que o abalasse, nem uma autoridade. “Eu lembro que foi polícia uma vez lá em casa, fazer não sei o quê. Ele nem foi atender e falou: ‘Ah, mais tarde eu passo lá’”, lembra Binho.

Para divulgar seu trabalho distribuía pequenos cartões e fazia anúncios durantes suas cavalgadas como herói. Um de seus famosos cartões foi parar num livro. “O Ignácio de Loyola Brandão nem o conhecia e colocou no livro o folheto do meu pai. Acho que pegou um folheto em Pinheiros e escreveu ‘Está chegando a São Paulo? Procurando casa? Procure o Mestiço no final do ponto Campo Limpo’, como se fosse pra alguém que está chegando a São Paulo. Está em ‘Bebel que a Cidade Comeu’ o folheto ‘procure o Mestiço’”.

Binho se lembra de quando tratava dos acessórios do Zorro Brasileiro. “Tinha uma coisa ruim, eu precisava engraxar as botas dele. As botas tinham até um ‘M’ de Mestiço, pretas com uns escritos em branco. A coisa mais linda! Mas dava um trabalho danado!” Pai e filho eram muito apegados, se davam muito bem. “A memória que tenho do meu pai é essa coisa do violão, de reunir as pessoas pra cantar, das loucuras. Sempre tinha umas ideias que eu pensava ‘de onde ele tirou isso?’”

Foi com o exemplo do seu pai, e da irmã Diane, que Binho, “blindado com a primogenitura”, começou a desenvolver seu interesse pela leitura e pela cultura. “Acho que com 13 anos eu li o ‘Capitães da Areia’ do Jorge Amado, e pra mim foi muito impactante. Já tinha lido outros livros, não lembro os outros, mas livros infantis mesmo. Eu li o Capitães da Areia e foi uma porrada. Eu via palavrões e pensava ‘como que pode escrever palavrão?’ Palavrão pra mim só podia falar, mas não podia escrever! Eu nunca tinha visto palavrões impressos no papel! Aí eu fiquei encantado com o livro. Lógico que eu fui até o fim. Li o livro todo e fiquei encantado com a literatura a partir dali. Isso foi um marco.”

A partir daí o poeta leu cada vez mais, começou a estudar Biodança, abriu um bar, e nasceu o Sarau do Binho. Houve um tempo em que Binho já fazia sarau, mas não chamava assim, era a Noite da Vela. Enfrentou muitos obstáculos para manter seu trabalho, mas ganhou o apoio das pessoas, se fortaceleu, e hoje tem reconhecimento. Muitas pessoas tiveram mudanças importantes em suas vidas pelo contato com o Sarau, e tudo isso começou com as influências que Mestiço – O Zorro Brasileiro teve na vida do poeta. A memória que o filho guarda do pai é de muito afeto. Ficou uma valiosa herança de pai para filho: o amor pela cultura, música e arte. “Fui influenciado de certa forma por essas coisas todas. Meu pai gostava de tocar música caipira, tinha viola. De certa forma eu cresci ouvindo poesia pela música caipira. Está em mim a hereditariedade dessas coisas.”

 

 

Campo Limpo Taboão

Quando nasci tinha seis anos.
No lugar em que nasci,
Sonhava que era tudo nosso.
Tinha os campinhos e os terrenos baldios.
Era meu território.
Já foi interior,
Hoje periferia com as casas cruas.
As vacas com tetas gruas
Não existem mais.
A cerca virou muro. Óbvio.
A cidade cresce.
O muro cresce.
Vieram os prédios, as delegacias, os puteiros
E as Casas Bahia.
Também cresci,
Fiquei grande.
Já não caibo dentro de mim
E de tão solitário
Sou meu próprio vizinho.
E de tão solitário
Sou meu próprio vizinho.

Binho

 

Noite da Vela

A Noite da Vela começou em 1995, quando o poeta Binho e sua esposa Susi voltaram da Inglaterra depois de morar lá por 2 anos. Ao chegar ao Brasil começaram a procurar algo para trabalhar e montaram um bar onde reuniam os amigos. À luz de velas tocavam discos e aos poucos a interação do público deu formato para o que, futuramente, seria o Sarau do Binho. “A gente tocava os vinis, o bolachão, então demorava até escolher, trocar lado A e lado B. [Um dia] alguém já estava meio afoito: ‘deixa eu falar uma poesia’, começou assim. E a gente foi dando cada vez mais espaço para isso.”, conta Binho.

Numa época em que ainda nem se considerava poeta, em 1996 numa das Noites da Vela, Binho teve a ideia de colocar as poesias expostas em postes, foi então que começou o Movimento Postesia. A partir dali muitas pessoas conheceram o seu trabalho.

Em 1998 começou a fazer a Postura, na qual as pessoas pintavam telas no bar. “O bar era pequeno, mas a esquina ficava tomada pelas telas. A gente tirava os materiais dos políticos [placas] das ruas, pintava eles e devolvia com a poesia. Esse era nosso ato revolucionário”, conta o poeta. A partir daí muita gente se aproximou, a Noite da Vela começou a ter influência do Movimento Hip Hop, também começaram a tocar reggaes no bar e assim expandir culturalmente os encontros.

Sarau do Binho

Robinson Padial, mais conhecido como Binho, começou intitular as noites em seu bar como Sarau somente em 2000, depois que conheceu os poetas Marco Pezão e Sérgio Vaz e iniciou a exposição de seus trabalhos em outros lugares, entre eles a Cooperifa, logo no início de sua formação. Para ele as pessoas que participam do Sarau tiveram o encontro com a poesia e se formaram com as informações que cada um leva. “Você ouve muita coisa que pega um pouco daqui, um pouco dali e vai construindo também a sua identidade com cada um. Tem seu crescimento pessoal no sarau. Ele vai formando você.” Binho conta exemplos de pessoas que começaram a fazer as poesias no bar, escrevendo em um guardanapo, e hoje já tem até livros publicados com suas poesias.

Passou por alguns percalços naquela época, o bar chegou a ser fechado, mas o movimento não acabou. “No final você sofre de todos os lados, é a prefeitura, é o tráfico, é tanta coisa que envolve você ter um bar na periferia. E a gente que trabalhava mais noturno, então tinha que enfrentar vários leões. A gente não queria só vender coxinha e pastel, tinha que ter algo mais, então esse algo mais era aliar o trabalho com a parte cultural.”

O Sarau ficou mais fortalecido ainda em 2008, depois da Caminhada Cultural pela América
Latina “Donde Miras”, onde passaram 30 dias na estrada fazendo poesias. Atualmente o Sarau do Binho está fixo no Espaço Clariô e na Praça do Campo Limpo, mas também acontece em escolas, bibliotecas, centros culturais e espaços de companheiros. “Para sarau não tem espaço definido, a gente trabalha em vários lugares, é só a palavra, a palavra vai para qualquer lugar, ela é fácil de ser carregada”, conta Binho.

Por Pâmela Ellen

Texto: Juci Fernandes
Ilustração: Daniela Franbez

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