Santa Rosa de Viterbo e o enigma dos Carnavais

Disposto a desvendar os mistérios de Santa Rosa de Viterbo?

Há 35 anos, o município mantém uma tradição carnavalesca que pouco tem a ver com samba no pé. No sábado de carnaval, seus moradores aguardam ansiosamente a divulgação de um elaborado enigma em um periódico da cidade que, se decifrado, conduz a uma arca, com jeito de tesouro pirata. Enterrada dentro do perímetro urbano, a peça vale um prêmio em dinheiro a quem conseguir encontrá-la.

A busca, que pode durar até a quarta-feira de Cinzas, surgiu de uma brincadeira entre amigos. Inspirados pelo conto o Escaravelho de Ouro, de Edgar Allan Poe, Renato Alberto Antunes e Ivan Alvim de Freitas idealizaram uma gincana que animou o carnaval de 81. Já na primeira edição, Romeu Antunes, irmão de Renato, foi eleito guardião do segredo. “Como trabalhava em um posto fixo, fiquei encarregado de distribuir as charadas aos participantes”. A primeira charada foi publicada no suplemento especial de Carnaval do jornal Santa Rosa Notícias, as seguintes eram entregues por Romeu em papéis mimeografados. Quem acertava recebia outra, até obter a pista que revelava o local onde a arca estava enterrada.

“O vassalo do nome de muito cobre
Aponta o início e o fim do azul. Rosto do astro, do azul eterno, do terno azul.
Aos pés do diligente vassalo, que grande foi na Macedônia,
Alusão à construção do caminho para chegar,
Do mesmo caminho para partir e a nada levar.
Mas, às costas do vassalo, o caminho do regalo
O nobre eterno, posto que metálico, protegido pelo aparente anonimato, acobertado por verdes telhados naturais,
Fita com seus olhos duros e imortais
O jardim de cimento que ostenta o nome da filha mais bela!
QUE NOME É ESSE?”
(Primeira charada, publicada no Santa Rosa Notícias)

Romeu Antunes, o rapaz das charadas, tomou gosto pela brincadeira e assumiu o desafio: desde 83 ele é o responsável por elaborar e redigir o enigma e esconder o tesouro. “Nas edições seguintes da Caça ao Tesouro de Momo, foi preciso simplificar, a cidade cresceu bastante, o número de participantes também, rodar a cidade começou a ficar caro, a gasolina já não valia o prêmio”. O enigma, agora uma única charada, passou a ser publicado no jornal, tradicionalmente no sábado de carnaval.

Para manter a dificuldade, Romeu começa os preparativos cerca de um mês antes do carnaval. Com dois livros sobre Santa Rosa de Viterbo publicados, o historiador domina detalhes e saberes sobre a cidade, que são usados com maestria na elaboração do texto. Para Zenaide Abdalla Rocha, que participa da caça desde 82, Romeu capricha no desafio – “ele tem medo de ficar muito fácil. Para participar, tem que conhecer a cabeça dele, o jeito dele pensar”.

Mas nem todos os participantes buscam um desafio intelectual. “Hoje em dia o pessoal já desistiu, mas tinha gente que me seguia tentando descobrir onde a arca estava enterrada”, explica Romeu. “Já aconteceu de um trator encontrar a arca por acaso durante uma terraplanagem no terreno, acabamos entregando o prêmio, afinal, o que vale é encontrar o tesouro”.

Para os interessados em participar da próxima edição, Zenaide, que demorou 18 anos para encontrar o primeiro tesouro, dá a dica: “além de um bom mapa, é preciso carregar um dicionário, o Romeu esconde muita coisa no significado das palavras que escolhe. O problema é que o enigma fica tão difícil que a gente tem que escolher, ou participa da caça ou brinca o carnaval. Fazer os dois é impossível”, conta rindo.

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Texto: Aline de Castro
Foto: Divulgação

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