Sambando como se não houvesse amanhã

Há 127 anos a Lei Áurea era assinada, decreto que abolia a escravidão no Brasil. A maioria dos negros já eram livres e alforriados, o que já era facilitado com as conquistas anteriores da Lei dos Sexagenários e do Ventre Livre, e como o Império já estava sob pressão de movimentos abolicionistas nacionais e internacionais, a assinatura da lei era praticamente inevitável. Um momento digno de ser comemorado depois de mais de 300 anos de escravidão no Brasil, e que não foi diferente lá nas terras do atual bairro do Cururuquara, em Santana de Parnaíba.

Logo que a notícia da abolição chegou lá na fazenda do Nhô Bueno no Cururuquara, os escravos que lá trabalhavam se reuniram na atual Capela de São Benedito, e fizeram uma grande festa com cantos e dança, comemorando a liberdade, ao som do Samba de Bumbo, tradicional samba do interior paulista. Leandro Manoel de Oliveira, um dos ex-escravos, manteve a tradição da festa durante os anos seguintes, sempre no dia 13 de maio, dia da assinatura da Lei. Posteriormente a tradição foi mantida pelos filhos e netos, assim como a tradição do Samba, apesar de todas as dificuldades de se manter plenamente fiéis as raízes, como bem relatado no documentário “Samba do Cururuquara” do diretor Renato Cândido. Uma das tradições que se mantém até os dias atuais é o levantamento do mastro durante a procissão, que é socado na terra pelos festeiros para atrair boas energias.

Essa dificuldade em se manter fiel a cultura, dada pelo envelhecimento das pessoas que originaram a festa, dificuldade de acesso ao bairro, e a falta de estímulo das novas gerações aos poucos têm sido contornada pelo apoio da Prefeitura Municipal na festa a partir da década de 90, e mais recentemente em 2010, na criação do Centro Cultural Leandro Manoel de Oliveira, que oferece workshops, palestras e oficinas sobre a história de Santana de Parnaíba, Samba do Bumbo, do bairro do Cururuquara, da cultura Afrobrasileira, além de saúde, cidadania, entre outros para crianças e adolescentes. Assim, como diz a música consagrada por Alcione – “não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”, a cultura da Festa e Samba do Cururuquara, que já dura 127 anos, pretende durar muito mais com as novas gerações, para valorização da cultura afrobrasileira e continuação do debate de questões raciais.
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Texto: Vinícius Nakamura
Foto: Miguel Schincariol

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