O som das marchas militares tomava conta da rua. Era o anúncio de que estava na hora de comprar o ingresso para a sessão de cinema daquela noite. Os vendedores de pipoca, pinhão cozido e amendoim estavam a postos, esperando o burburinho de gente que se aglomerava a espera do filme que seria exibido. Era sábado, numa longínqua Redenção da Serra dos anos 50.

Para as gerações atuais, principalmente no interior do país, o cinema virou coisa de shopping center. Mas houve uma época em que toda cidadezinha ostentava uma sala cinematográfica de rua, que, em geral, era o principal entretenimento da população.

Muitos cinemas antigos foram esquecidos, mas uma coisa torna o caso de Redenção da Serra especial: o antigo prédio desapareceu, junto a quase toda cidade velha, com a construção de uma represa. As memórias deste e de outros lugares estão difusas entre os moradores mais antigos e poucos registros oficiais. Por isso a série RG se dedicou a resgatar estas lembranças, ouvindo histórias que os moradores têm para contar.

Um dos habitantes mais idosos da cidade, o Sr. Antônio de Souza aos 90 anos já não escuta nem enxerga muito bem, mas se lembra com clareza qual era a preferência geral: “A gente trabalhava na roça, e no sábado ia com a namorada no cinema. Todo filme do Mazzaropi era bom, você se sentava e quase caía da poltrona de tanto rir. Porque era bonito, bonito mesmo, você passava a semana toda lembrando”.

De fato, todos que falam do antigo cinema falam de Mazzaropi. A ligação de Mazza com Rendenção vai além do sucesso dos longas exibidos. A cidade foi cenário para o filme Uma Pistola para D’Jeca, em que alguns moradores foram figurantes. É o que conta a Maria Rosângela de Paula, 57 anos, gerente de organização na escola Coronel Queiroz: “A minha mãe tinha uma pensão, e o Mazzaroppi foi almoçar lá em casa. Inclusive minha irmã, que é dois anos mais velha do que eu, foi figurante no filme. Eu lembro que fiquei muito brava por que tinha que ser maior de 16 anos para participar e eu tinha 14”, relembra. O pagamento? Um lanche e a oportunidade de participar já bastavam.

As gravações aconteceram às vésperas da desapropriação dos prédios para a construção da represa. O filme não chegou a estrear na cidade.

As lembranças mais vivas são relatadas por Jorge Rabelo, de 75 anos: “Quando eu cheguei na cidade, em 1947, já existia o cinema”, contou o despachante. A data confirma informações publicadas no blog Cine Mafalda, onde Alexandre Miko disponibiliza relatórios de uma antiga distribuidora de filmes da capital paulista, que atuava na década de 60. Ainda de acordo com estes registros, a sala tinha capacidade para 80 pessoas, e uma média de público anual de 2,5 mil pessoas.

Voltando às memórias de Jorge, quem instalou o cinema na cidade foi um “turco” chamado Salim. Depois assumiu o comando das exibições o dono de uma fábrica de farinha que levou seu negócio principal como sobrenome, ficando conhecido por Zé da Farinha.

O auge veio em meados dos anos 50, quando José Benedito de Oliveira, o Zé da Ana, assumiu o comando do cinema. Foi ele o responsável pelo nome dado ao local: Cine Paratodos. O batismo contou inclusive com a bênção do padre no dia da instalação do letreiro.

Naquela época o foco de luz do projetor era dado por uma vareta de carvão que ia se desgastando de acordo com o uso: “O operador era o Waldemar Ortiz, que durante o dia era pedreiro e nas noites de sessão operava a máquina”, recordou Jorge.

A tradição era a sessão de sábado, onde acontecia a exibição dos filmes mais concorridos. Entre películas norte-americanas, brilhavam as produções nacionais como Ankito, Oscarito e a unanimidade: Mazzaropi. Vinham famílias inteiras para assistir as aventuras do Jeca, inclusive os moradores da zona rural: “O Mazzaropi era o grande sucesso, o único filme que repetia em mais de uma sessão. A turma gostava muito daquele tipão dele, aquele modo brega”.

Quando o Zé da Ana havia adquirido algum seriado das distribuidoras, acontecia uma sessão mais barata na quarta-feira. Na Sessão Popular eram projetados faroestes americanos, como os estrelados por Tim Holt e histórias de ficção científica a exemplo do icônico Flash Gordon.

Chegando à metade da década de 60, a popularidade dos filmes já não era mais a mesma e as atividades do Cine Paratodos chegaram ao fim. Porém o local continuou conhecido como “o cinema”, passando a ser ocupado como um salão social. Lá aconteciam as festas de formatura, bailes de carnaval, homenagens, premiações e até bailes de Rainha da Primavera, onde a moça que mais vendia ingressos para a festa era coroada.

Com a construção da Represa de Paraibuna no início da década de 70, os prédios públicos foram desapropriados rapidamente, o que fez da construção que abrigou o Cine Paratodos uma das primeiras a serem extintas na transição.

 

Redenção de Todos os Tempos

Muito da memória fotográfica da cidade tem sido recuperada no grupo Redenção de Todos os Tempos. Idealizado pela professora Ana Néri de Faria, o grupo surgiu com o objetivo de coletar fotos da cidade velha para apresentar aos alunos da Escola Coronel Queiroz.  A ideia cresceu, e de lá surgiu o Encontro de Redencenses. “Nosso objetivo é resgatar a parte sentimental entre os moradores antigos, que deixaram a cidade, e os que vivem aqui atualmente”, contou Ana Néri.  A última edição do encontro reuniu mais de duas mil pessoas na Avenida 10 de Fevereiro. Além de resgatar a memória, o encontro pretende fazer com que os moradores da cidade velha sintam-se pertencentes também à Redenção dos dias de hoje. No grupo é possível encontrar fotos antigas do projetor, imagens da fachada e de eventos que aconteciam no prédio do cinema.

Texto: Mariana Krauss
Arte: Angelo Moraes

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