A banda alegre com uma nota triste

Antônio Carlos Carvalho Villaça tem 79 anos, 50 deles vividos em Osvaldo Cruz. Ele chegou à cidade a trabalho e, quando se aposentou, decidiu criar uma imobiliária e ficar por lá mesmo. Seria simples assim se ele conseguisse não se envolver.

Primeiro, com a ajuda da esposa, conseguiu levar uma escola do Sesi ao município. Depois, passou a treinar o time de basquete colegial da cidade – ele havia jogado pelo Palmeiras – e conseguiu ser bicampeão paulista entre 2.000 equipes.

Mas, a passagem que mais marcaria a vida do osvaldocruzense de coração viria na década de 1990, quando decidiu fundar a Banda Marcial da cidade. Ele combinou com o prefeito da época que o município pagaria o maestro e ele arcaria com o restante. “No começo deu certo, mas em pouco tempo eu estava bancando tudo. Só que valeu à pena”, recorda Villaça.

A banda tinha 60 jovens, ensaiava de três a quatro vezes por semana e se apresentava em todas as festividades da região. “Era coisa de louco, quando os meninos passavam na rua aqui todo mundo se arrepiava”, satisfaz-se o benfeitor.

Eu ia à Rua 25 de Março, em São Paulo, comprar as coisas para fazer o uniforme. Comprava botões, tecidos, os quepes… Aí estava tudo feito, imitando os americanos, aquele uniforme bonito, vistoso, mas a gente olhava para os pés da molecada e tinha um de chinelo, outro de sandália, outro de tênis. Então vamos comprar sapatos! E onde achar o mesmo sapato pra 60 pessoas? Fui lá em Franca, na fábrica, e pedi: ‘Quero tudo desse modelo, tantos desse número, tantos daquele…’. Aí, sim, ficou bonito”, descreve Villaça.

Todo o esforço viria a ser recompensado. Em 2001, a Banda Marcial de Osvaldo Cruz foi campeã paulista e conquistou o direito de disputar o Campeonato Brasileiro. Mais que isso, chegou à final que seria disputada em Florianópolis (SC). “Chegamos lá e foi uma alegria, porque era uma molecada simples, a maioria nunca tinha visto o mar. Foi uma festa, eles correndo na areia, mergulhando nas ondas, tomando caldo, estranhando o gosto salgado da água (risos). Já tinha valido a pena. Mas, ainda tinha algo reservado para nós. Voltamos não só com história para contar, mas também com o título brasileiro.”

E no ano seguinte a história se repetiu. Osvaldo Cruz levou novamente o título paulista das Bandas Marciais e chegou à final do Brasileiro, dessa vez disputada em Taubaté (SP).

Chegamos à final de novo e… Desculpa, estou lembrando da minha mulher” – pausa Villaça, com a voz embargada pelo choro iminente.

“Minha mulher queria muito ver o desfile, mas ela estava internada com câncer em São Paulo. Ela pediu para o médico e ele então a preparou para sair e viajar até Taubaté. Fomos todos juntos assistir: eu, ela e minhas filhas. Mas, não conseguimos ver o desfile. Um pouco antes de começar ela se sentiu mal e a levamos de volta correndo para São Paulo, numa ambulância. Ela faleceu. Mais tarde o maestro ligou dando a notícia de que tínhamos sido bicampeões brasileiros.”

 

Texto e foto: Thiago Ferri

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