O problema é que me apaixonei

Sei não, só sei que foi assim… 

São 5:12 de uma terça-feira qualquer e tudo que vivi nessas três semanas ainda me tiram o sono. Não foi como imaginei. Na verdade, nem me lembro como imaginei. Estava tão só naquele momento.

Hoje me acompanham 11 cidades, em 9 nos apresentamos, quase 150 pessoas diferentes nos 3 roteiros em que peguei carona, 2.508 Km percorridos, 45 cafés tomados…

Parece que estou lendo o banner de comunicação visual do evento: “14 roteiros, 118 cidades, 80 trabalhos artísticos, 882 apresentações, 700 horas de programação”.

É engraçado como recorremos aos números para justificar o que sentimos. Logo a eles, tão frios, exatos, pouco sexys. Bom, pelo menos para aqueles que são de humanas, como eu, que vivo de minha arte na praia. Parece que encontramos na razão dos números condições mais fáceis de convencimento daquilo que vivenciamos. Acho que muita gente precisa deles. Acho que para eu possa ignorá-los, eu preciso dessa gente. Sou grato a você, que curte números, serião.

Qualquer dia faço um corre com esses caras

O Circuito Sesc de Artes tem o tamanho apresentado no folheto e no banner colocado em cada praça. É grande a equipe técnica, de infraestrutura, de produção, enfim, são muitos os atuantes nessa empreitada de deixar tudo pronto, na hora. E se chover, bóra para o plano b, e deixar tudo pronto, na hora, só que de outro jeito, em outro lugar. Eu pouco conversei com vocês. Desculpem-me por isso. Sou grato por estarem ali e terem permitido que eu estivesse também.

São muitos reais investidos nesse projeto, muitos poderes também. E quanta energia dissipada? 5 meses, desde as primeiras reuniões até a devolução de como foi esse ano. E o do ano que vem, quando vamos conversar sobre isso? Calma gente… tô de brinks!

Também é infinita a possibilidade de combinações de diversão, arte e suas linguagens estabelecidas e reinventadas dentro dos ônibus. Eu, bem como Barbara, Júlia, Wagner e Willian, fugi com os artistas do circo, da literatura, da música, da dança, do cinema, do teatro, das artes visuais. Mas também da arte de comer o maior lanche do mundo, de cantar todas as músicas usando apenas lá, lá, lá… de ouvir histórias de uma embaixatriz do samba e o som de instrumentos incríveis na laje da Lili. E a arte de dançar sozinho, achando que ninguém estava vendo, e ouvir um “arrasou na dança ein”, nos corredores do camarim. E teve também quando ela entrou no ônibus com uma blusa igual aos cobertores que estavam nos bancos… basicamente um curso de tapeçaria e decoração. Grato artistas, pela arte e pelo quanto normais vocês são. Subam em arvores à vontade.

Foi lindo para todos.

O problema é que me apaixonei

E não foi pela grandiosidade do evento, mas sim pelo que foi único.

Aconteceu uma vez só, custou quase nada e durou tão pouco tempo.

Como o som… das andorinhas na apresentação de dança, do sino da igreja que fez a trilha da peça de teatro, do instrumento que saia da porta fechada de um dos quartos do hotel, do pandeiro no ônibus.

Vídeo: Jôcarla, do roteiro 3.

Estou apaixonado pela ansiedade de Luana ao ter que escolher entre os marcadores de livros da turma do Pé da Letra e de seu entusiasmo com a poesia que a sorte lhe dera. De Celma Maria, Descobrir. Da audácia do moleque que provoca o artista quando ele já não está em cena, para que salte um tal de parafuso e o artista cede, brinca, feito tivesse mesma idade da criança e salta, planta bananeira… e a da querência das crianças de Ibirá, tal como de Cananéia para que ficássemos mais tempo. Ahh… vai agora não…

Como não se apaixonar pelo céu de Cajati, pela lágrima que precede o abraço, pelas histórias de Karol, de Cauã, dona Maria de Cássia, Murilo, seu Geninho e seus nobres amigos.

Pelo momento em que o piá avistou as crianças mais velhas batendo nos tambores do Afro Koteban e, devagarinho, foi se aproximando, até se ver sozinho, diante da possibilidade de interagir como aquele tambor que pulsa e tem quase sua altura. Por me ver adulto, ao ajudar o garoto de macacão preto a calçar seus tênis depois da contação de histórias. Por acompanhar à distância o encontro, feito em rodas, entre artistas e a cidade e entre mim e a escrita.

Dois espetáculos em um

E também pelos segundos que vi as jovens cantando o som do Yebo, enquanto os artistas se abraçavam no fim de mais uma apresentação. E de quando, fora de cena, ela continuava dançando euforicamente, lindamente para si.

Como toda paixão, é repentina, voraz e tem fim.

O circuito acabou. É tempo de desfazer as malas e arrumar o que fazer na próxima quinta-feira, já que não viajaremos mais.

E esse curto-circuito que dá na mente em pensar o que deixei para trás?

Grato a tudo a todos.

Escrito por:

Claudio Eduardo

Posts Relacionados

Comentários