Nós, Esses palhaços!

Vivemos em tempos onde levar um palhaço maquiado a sério é mais fácil do que aceitar a seriedade de certas máscaras sociais.

Afinal, alguns personagens reais não estão entre nós à toa.

Mas a frase talvez seja imprópria. Não se trata de um mérito dos nossos tempos. O palhaço sempre carrega a realidade afiada no bolso. Ele a usa em benefício da piada, mas principalmente em função da identificação com a pessoa satirizada. Ora, a consciência do homem por trás do palhaço é a conexão entre a realidade da plateia e a permissão que o personagem tem para o deboche.

Em outras palavras, o palhaço é um grande exercício de autoconhecimento.

Gonzalo, o polêmico!

Encontro um exemplo para isso no espetáculo Circo Delírio, dos Irmãos Zíngaros, durante o Circuito Sesc de Artes em Rio Claro e Tietê. Nas duas ocasiões o palhaço vivido por Gonzalo Caraballo tomou o celular das mãos de pessoas que verificavam o aparelho durante a apresentação. Gonzalo faz, como se falasse com uma pessoa do outro lado da linha, um discurso direto sobre a falta de respeito da dona do celular com o artista. Suspensa na realidade lúdica do espetáculo e no absurdo da situação, a pessoa aceita o discurso moral rindo (por ansiedade, de fato).

Mas trata-se de um recurso estratégico. Identificar o deslize mais banal na plateia e escancará-lo para todos, criando vínculo com uma ideia que a maioria do público supostamente pensa, mas não tem coragem de falar.

Caraballo também usa esse recurso ao trabalhar com estereótipos sociais, identificando um homem branco de 50 a 60 anos entre os espectadores para atribuir a alcunha de prefeito da cidade. Ele trata esta figura de maneira ilustre, mas quebra a lógica desta relação o utilizando como cabide de seu figurino durante a apresentação. O público identifica a caricatura da figura política e se satisfaz em vê-la em desacordo com a norma. O resultado é a graça.

Lupércio, o desatualizado…

Daniel Salvi vem apresentando o espetáculo O Poste no Circuito Sesc de Artes. Nele, o personagem Lupércio está encarregado de trocar uma lâmpada queimada em praça pública. Daniel condensa durante a apresentação uma série de situações que possam atrapalhar esta empreitada. Talvez isto não se sustentasse em 50 minutos de duração, não fosse o talento do ator em criar circunstâncias onde o afastamento (pelo absurdo) e a aproximação (pela identificação) com o personagem permaneçam dinâmicas.

Lupércio faz seu horário de almoço durante o espetáculo. O público fica impaciente pelo tempo exagerado que ele leva para montar sua mesa (afastamento). Quando soa o alarme do fim do almoço e Lupércio mal conseguiu comer, a tensão da espera se torna cômica pois sabemos como é ruim perder a refeição (aproximação). As cenas escancaram o que existe de ridículo em determinadas convenções e comportamentos humanos, nossas tentativas falhas de controlar o mundo a nossa volta. Rimos por serem exageradas, mas somente por serem um exagero plausível de nossa sociedade.

O virtuosismo destes artistas se torna importante na medida em que é necessário isolar o espetáculo do cotidiano e conquistar o espaço da fábula no imaginário de quem assiste. Os feitos extraordinários de malabarismo, ilusionismo, equilibrismo, ou mesmo a trilha musical e todo o exagero proposto no figurino e no gestual cênico servem como encantamento para vermos nossos próprios erros e enganos ilustrados comicamente pelos palhaços.

No fim das contas, a palhaçada toda é o reflexo do que a vida nos propõe. Se a plateia são os outros e o palco é toda vida, que sejamos os palhaços!

Escrito por:

Wagner Linares

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