Ilustração: Bárbara Carneiro

Para começar, coloque Sparks do The Who. No talo.

Agora sim, boa leitura. Boa viagem.

Em casa, estão dizendo que vou fugir com o circo. Dou uma risadinha, olho pro lado, e penso “é, eu vou fugir com o circo, mas também com a dança, com a literatura, com a música, com o teatro, com as artes visuais, eu vou fugir com várias linguagens por muitos dias”.

Desde que me contaram que eu ia entrar num ônibus e parar de cidade em cidade, tento lembrar de todas as vezes em que, sim, pensei em fugir com o circo. Que pensei em escolher um lugar onde ninguém me reconhecesse, onde o açougueiro do bairro não fizesse ideia qual era minha família, ou alguém da velha escola não me veria cantarolando pela rua. Um lugar onde os vícios do meu olhar ficassem em casa e onde desconhecidos seriam minha referência de mundo.

Estarei na estrada durante as três semanas do Circuito Sesc de Artes 2017, traçando uma das narrativas possíveis (redigida em texto, foto, filme e sonho) que ofereça um testemunho sensível àqueles que não poderão presenciar este evento ou queiram vivê-lo através deste espaço. É uma honra que através do recorte dos meus olhos seja vista uma parte desta experiência. Trata-se de um presente precioso e uma responsabilidade sem tamanho. Transformar as palavras do meu texto na crônica do encontro entre o público e a caravana do circuito não me parece tarefa fácil. Também não me parece nada chato.

Tento não pensar nas coisas que podem ou não acontecer. Limpo a mente. Que elas aconteçam. E eu quero estar lá pra ver. Quero experimentar, mais que tudo. E nada melhor do que experimentar em trânsito, no fluxo dos acontecimentos; das atividades espontâneas e do convívio humano e comum. O início do espetáculo tem hora marcada pra acontecer, assim como o seu final – tenha ele um ‘bis’ ou não. Mas o que acontece enquanto o planejado acontece? Qual lugar do inesperado? É isso que eu quero descobrir. Dizem que quando aceitamos participar de uma empreitada para contribuir com algo novo, a maior e mais verdadeira contribuição acontece dentro de nós. Será?

Quero prestar atenção no que ninguém vê, mas que pode ser interessante e verdadeiro, o “desacontecimento”, citando Eliane Brum. Ficar alerta aos detalhes e sensações que a arte pode gerar – ou reavivar – nas pessoas, público e artistas, com essa passagem meteórica pelas cidades. Falando nelas, nas cidades, vou de coração e mente abertos para toda cultura que elas tenham a oferecer, somando em mim qualquer experiência. Enfim, um Circuito sem roteiro, repleto de entrelinhas que precisam ser trazidas à tona.

Três mil palavras ao som de uma guitarra incendiária, escreverei o que quiser, sempre no calor do momento e com exatidão dos fatos. Ao final da viagem, serei conhecido como “the enemy”, aquele que age com honestidade e sem piedade. E também me apaixonarei pela pessoa que se apaixonará por alguém bem legal do circo. Enfim, tirarei férias de mim.

Na real essa é só minha interpretação do filme “Quase Famosos”, o qual não sai da minha cabeça desde que recebi o convite para embarcar nessa viagem.

Já reparou que a verdade tem um som diferente?

Em breve, notícias da estrada!

Escrito por:

Bárbara, Wagner, Willian, Júlia e Claudio Eduardo

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