Gente do lado de lá

Terra, mar. Ao todo, são 9 horas de viagem de avião e mais um bocado de ônibus. Deixar o país de origem requer coragem e determinação. A vinda é pra coisa séria: a formação acadêmica em Engenharia Civil. Deixar Luanda, capital de Angola, e mudar-se para Lins (SP) representa a busca por um desejo bastante patriótico. Voltar e contribuir.

Três jovens angolanos escolheram a cidade paulista para estudar. E não são os únicos. Outros 127 cidadãos de Angola também optaram por uma das universidades existentes em Lins, a mesma de Márcio Sousa Ebo, Osvaldo da Conceição Coutinho e Gerson Menga Nfinda Mbengi. A instituição faz seleção de alunos anualmente no país africano.

No caso de Márcio, de 21 anos, estudar no Brasil representa a oportunidade de construir um futuro melhor no país de origem. O estudante pretende retornar ao final da graduação para contribuir com o sistema de pavimentação de lá. Tudo está em um projeto desenvolvido paralelamente aos estudos que prevê a criação e implantação do asfalto em ruas e avenidas com método mais atual e econômico.

No noroeste paulista viu projetada a principal imagem que tinha como referência do Brasil: terras produtivas e sistema agrícola bastante desenvolvido. Além disso, sempre ouviu falar que aqui a produção de biocombustíveis é pioneira e mantém-se na vanguarda. Para confirmar a afirmação, bastou circular pela região, rica em plantações de cana-de-açúcar e com intensa produção no setor sucroalcooleiro.

Entretanto, acostumar-se com o Brasil não foi tarefa fácil. Márcio encontrou alguns problemas para se comunicar com os brasileiros. “Quando cá cheguei encontrei dificuldades pela diferença de sotaque, embora compartilhamos o mesmo idioma”, revela o estudante. Mas isso não foi impedimento para que ele logo se adaptasse. Até mesmo com a calmaria da cidade, característica típica do interior.

Osvaldo da Conceição Coutinho, 23, já tem emprego garantido em uma construtora quando retornar a Angola, lugar onde já trabalhava antes do início dos estudos. A empresa se despediu do jovem como um funcionário sem formação e o receberá de volta como engenheiro. Com diploma e tudo que se tem direito.

Para matar a saudade dos familiares e amigos, separados por mais de seis mil quilômetros, usa a internet para estabelecer contato. Aos finais de ano, retorna ao país para a festa natalina.

Do lado de cá do Atlântico encontrou uma cidade quente. As altas temperaturas da região chamou a atenção de Osvaldo, acostumado com o clima ameno de Luanda. Porém, em contraponto à temperatura elevada, considera Lins um município pacato e apropriado para os estudos. “A cidade é calma, sossegada e consigo estudar tranquilamente”, afirma.

Já Gerson, 21, diz que conhecia muito a respeito do Brasil porque o povo angolano está constantemente em contato com a cultura brasileira por meio de programas televisivos como novelas, músicas e conteúdo disponível na internet. Ele conta que, apesar das diferenças culturais e linguísticas, conseguiu se acostumar rapidamente. “O ser humano tem a incrível capacidade de adaptar-se ao ambiente que é inserido”, considera Gerson, que se dedica aos estudos com a intenção de permanecer no Brasil para fazer pós-graduação.

Márcio, Osvaldo e Gerson vivem no interior paulista há três anos. Os angolanos já estão integrados à rotina da universidade e dos universitários. A convivência cotidiana com os brasileiros faz com que os daqui não os reconheçam como naturais do lado de lá do Atlântico. “A presença deles é tão comum que a gente nem os vê como estrangeiros”, comenta Gilson Oliveira, estudante brasileiro de Engenharia Civil.

Texto e foto: Breno Alves

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