É difícil encontrar em Jaboticabal quem não tenha pelo menos um músico na família. Corre no sangue dos seus moradores  a paixão pelos arranjos e harmonias, tradição que passa de pai para filho há mais de um século e rendeu ao município o cognome de “Cidade da Música”. Para desvendar as raizes dessa vocação artística, fomos conhecer a história de uma das mais antigas bandas brasileiras, a “Corporação Musical Gomes & Puccini”, ou, para os íntimos a “Bandinha”.

Fôlego e harmonia: um centenário de história

José Paulo Lacativa Filho é Secretário do Governo na prefeitura de Jaboticabal e, como bom jaboticabalense, também tem entre seus talentos a música. José conta a história da Gomes & Puccini com propriedade: além de participar da banda desde 89, foi presidente da Corporação Musical por 16 anos e escreveu um livro onde detalha toda a trajetória do grupo. O sorriso largo enquanto conversamos logo entrega: é um apaixonado pela Bandinha. Como pede a tradição, a música está na família há gerações, tanto do lado materno como o paterno – seu tio, Primo Bragiola, foi maestro do grupo por 27 anos e participou da banda desde a sua fundação em 1912, quando a fusão entre as Bandas “Operária” e “Coronel Vaz” originou a Gomes & Puccini, batizada em homenagem ao compositor brasileiro de óperas Carlos Gomes e ao também compositor de óperas Giacomo Puccini.

 

 

José conta que a fama de “Cidade da Música” foi conquistada em 1950, por conta da participação da Gomes & Puccini e da Pietro Mascagni, as duas grandes bandas de Jaboticabal, no concurso de Bandas Civis do Estado de São Paulo. A peça de confronto – música que deveria ser executada por todas as bandas na competição – foi a sinfonia da ópera “O Guarany” – de Carlos Gomes. Com a benção de seu patrono, a Bandinha foi vitoriosa na batalha musical: venceu a Pietro Mascagni e tornou-se campeã estadual naquele ano, deixando para os conterrâneos o segundo lugar.

“No dia do julgamento, o majestoso Teatro Municipal de São Paulo, lotadíssimo, sendo a maior parte da assistência composta por pessoas de Jaboticabal, ofereceu ao público de São Paulo um espetáculo fora do comum. Ao ser anunciado o segundo prêmio para a Mascagni, de Jaboticabal, o nosso povo delirou de maneira indescritível, mas ao ser proclamado o primeiro prêmio para a Gomes e Puccini, francamente não sabemos dizer: muita gente boa expandiu-se, contentíssima, num entusiasmo franco e delirante. Logo generalizou-se entre nossos conterrâneos a expressão popular: fizemos barba e cabelo”
    – Depoimento do jornalista Silva Junior, enviado do jornal “O Combate” de Jaboticabal para a cobertura do concurso.

Em 1954 os títulos se inverteram e a Mascagni levou a melhor, mas Jaboticabal seguia orgulhosa de ser a casa das melhores bandas do estado.

A Velha Escola e a Nova Geração

Do alto de seus 82 anos, Norival Hermenegildo Luppia, mais conhecido como Vavá, é o mais antigo membro da Gomes & Puccini. Lamenta não ter participado da fase áurea da banda, entrou no grupo depois dos grandes concursos, em 1956. Relembra a disputa acirrada entre a Puccini e a Mascagni naqueles tempos: “as duas bandas eram igual time de futebol, né, tinha aquela rivalidade. Um músico não podia ver o outro, virava a cara, saía até briga”. Toca sax barítono, mas entrou na banda tocando clarinete “aprendi o mais difícil primeiro, para tocar o saxofone que era o que eu realmente gostava depois ficou fácil”. Diz que começou velho, aos 25 anos “meu filho com 12 anos já estava tocando, fazendo seu primeiro carnaval”. Com orgulho, conta que o filho Norberto Luppia vive exclusivamente da música, é professor e hoje é o Presidente da Gomes & Puccini – seo Norival é o vice.

Tantos anos de música renderam boas histórias e muitas viagens – em uma delas, conta Vavá, o veículo que levava o grupo tombou. “Chegamos com a perua toda amassada e fomos tocar assim mesmo, com dor, a sorte é que fui tocando caixinha, pois não conseguia puxar o ar direito, doía tudo. O maestro foi descobrir depois de três dias que quebrou a clavícula”, conta, rindo. “A gente fazia de tudo na época, ia viajar até na carroceria de caminhão”. Além da Gomes, Vavá participou de inúmeros grupos musicais da cidade, entre eles a Banda São Luis e a Sul America e teve seu próprio grupo, “Vavá e seu Conjunto”.

Já veterano com seus 16 anos, Charlex Braz Leite Bueno também tem na família a herança musical: o tataravô e o bisavô eram músicos, o avô Charny Leite foi maestro da Gomes por 9 anos e o atual regente,  Charlon Luis Leite Bueno é seu tio. É o mais jovem músico da Corporação, o que não significa pouca experiência, começou a tocar aos seis anos e está na Puccini desde os oito. “Nem lembro quando comecei a tocar, acho que já nasci com um instrumento na mão. Desde pequeno meu pai dava um bumbinho pra mim e eu ia atrás da banda tocando junto”, brinca. Os planos para o futuro não poderiam ser diferentes, Charlex quer cursar música.

Semeando novos talentos

A “Escola de Arte Profº “Francisco Berlingieri Marino”comemora em 2015 seus 20 anos. Fundada em fevereiro de 95, o espaço assumiu a responsabilidade de perpetuar a tradição artística da cidade eoferece aulas dos mais variados instrumentos musicais, além de cursos de Teatro, Dança e Artesanato. “As bandas da cidade vão acolhendo esses alunos da Escola de Arte, é um incentivo para que não desistam, que aprendam com os mais velhos. É também uma forma de manter viva a música na cidade”, diz Vavá.  Pelas salas repletas de estudantes e pelo som dos instrumentos nos corredores da escola, Jaboticabal certamente manterá o título de Cidade Musical por outras centenas de anos.

As Grandes de Jaboticabal

Além da Gomes e Puccini e da Pietro Mascagni, Jaboticabal também é o berço de outras tradicionais bandas do interior paulista, como a banda de fanfarra São Luis, na ativa desde 1958. Abel Zeviani, diretor da São Luís há 29 anos, explica que até hoje a São Luis executa apenas as verdadeiras composições para bandas, mantendo o tom tradicionalista. Também são filhas ilustres da cidade duas das últimas três orquestras de danças do estado: a banda “Sul America” e “Arley e sua Orquestra”, que apesar de ter nascido em Catanduva, hoje está sediada em Jaboticabal.

Além das bandas marciais, sinfônicas, orquestras clássicas, grupos como “Orquestra Copacabana”, “Os Bossistas”, “Grupo de Choro Nó na Madeira e vários outros grupos musicais contribuíram e ainda contribuem com a história musical da cidade.

Texto: Aline Sagiorato de Castro

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