O improviso e o programado

A Arena do Taboão, em Bragança Paulista, tinha uma organização particular em seu espaço. De um lado, traquitanas, engenhocas e outros inventos moviam-se à medida que o público incentivava seus sensores. Do outro, um palco em que ninguém sabia o que ia acontecer. Todas as outras faces da praça estavam nesse intervalo entre o improviso e o programado.

Os robôs pareciam agitados quando cheguei para conversar com Glauco Paiva sobre suas construções. O artista, que é tratado como um cientista maluco entre os outros do grupo, me contou que começou a experimentar com programação na época em que dividia apartamento com um amigo engenheiro. O amigo queria aprender a desenhar e Glauco a programar. Apesar dos robôs que conversavam em suas formas humanóides feitas com potes de cozinha e outros utensílios baratos, o que mais me chamou a atenção foi um mecanismo que desenhava círculos concêntricos com canetinha, montado a partir de duas réguas escolares. Perguntei a Glauco se há espaço para improviso ali. Nada! Está tudo devidamente calculado. A programação, feita em linguagem C, determina que a canetinha vai andar 5° em uma das réguas cada vez que a outra régua fizer um movimento de 180°. Ali ao lado, apresenta-se a dupla Jorge Ribeiro e Zuza em um número meticuloso de malabarismo com esferas, ao som de didgeridoo. Tudo tão preciso e hipnotizante que poderia até parecer artistas programados em alguma linguagem cibernética.

A última apresentação da noite é o justo oposto desse controle da arte. O QFC – Batalhas Improvisadas tem uma premissa simples de colocar duplas de comediantes para duelarem em um ringue. Perguntei ao diretor, César Gouvêa, o quanto de improviso tem no espetáculo. “É 100% improvisado. Temos uma estrutura: uma banda, um apresentador e duas duplas. E sabemos que serão 4 rounds. Agora, cada round depende das sugestões do público. Por isso a gente diz que o público é co-autor do espetáculo, porque além de decidir os temas, ele decide qual dupla que vai vencer. E co-autor porque graças à disponibilidade e à permissividade deles que a gente pode fazer esse espetáculo juntos.” Ao contrário de outros espetáculos de teatro, em que há ensaios, a Cia. do Quintal faz treinos, para entrar em campo preparada para o improviso.

A questão é: e tudo o que fica no meio? A embolada de Caju e Castanha, a dança do espetáculo Desvio e as intervenções dos Poetas Ambulantes. A dupla Caju e Castanha apresentam seu repente para uma plateia animada. Começam o show com músicas mais conhecidas do repertório brasileiro e logo vão para a improvisação satírica com seu trio de baião. Aqui, então, chegamos ao meio termo. Na apresentação de dança da Cia. Muovere o improviso está na primeira parte que acontece em travessias de pedestres. A expressão facial dos dançarinos acusa a surpresa quando descobrem que movimento terão que executar. “Todo dia, toda apresentação é um novo desafio”, me contou a diretora do espetáculo, Jussara Miranda. “Eles ficam espantados, mas eles se preparam”. Os passos de dança que eles são instigados a performar foram recolhidos de movimentos feitos por pedestres em ruas de Porto Alegre.

Quem deu conta de me explicar como é estar neste meio de caminho entre o improviso e o programado foi o Jefferson Santana, do Poetas Ambulantes. As intervenções dos poetas partem de repertórios pessoais, devidamente decorados em grupos ou individualmente. Só que o microfone está aberto ao público e o público se engaja em declamar seus poemas – ou seus poemas e músicas queridos. Para Jefferson, o que une a programação da praça que parece estar tão próxima do improviso é justamente contar com o público para ver e fazer a arte acontecer, mesmo nos momentos mais meticulosamente ensaiados.

Escrito por:

Bárbara Carneiro

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