Da capital, Santa Fé do Sul fica a mais de 600 quilômetros. Foram mais de sete horas de viagem até Fernandópolis e, depois, mais cinquenta minutos até a cidade. Mais uns quilômetros e saíamos do estado. Nesse caminho, fiquei pensando na ideia de fronteiras. Como as distâncias eram grandes, acho que consegui até pensar bastante nisso. Fronteiras são invenções que delimitam, mas que podem ser transpostas. Algumas das pessoas que estavam na Praça Salles Filho no dia 6 de maio aproveitando a programação do Circuito Sesc de Artes cruzaram a fronteira para se estabelecer em Santa Fé do Sul no últimos 68 anos da cidade, como é o caso da Dona Otília, de 84 anos.

Só que no grupo de artistas que eu acompanho nessa segunda semana de Circuito Sesc de Artes, muitas fronteiras foram passadas. O grupo 3 ao Quadrado é um exemplo. São nove bboys (dançarinos de break, um dos elementos da cultura hip hop) de três companhias de dança diferentes do interior de São Paulo, que se apresentam juntos.

“É incrível reencontrar o Leozinho [um dos bboys da 3 ao Quadrado] depois de 10, 12 anos. É incrível tudo o que o Circuito Sesc de Artes proporciona. É um aprendizado pra todo mundo aqui.”

Conversei com o Ricka, que é dançarino e idealizador desse grupo, sobre o que significa para esse pessoal se juntar e se apresentar nas suas regiões. Ricka me contou que eles se encontraram um dia antes de embarcar no primeiro dia para a região de Presidente Prudente e ensaiaram a coreografia. A apresentação anima a galera com os dançarinos mas também com DJ e improviso de rimas. A cada dia, os rodopios e saltos ficam mais elaborados e o entrosamento aumenta. É que, para quem não sabe, as companhias duelam entre si em eventos de hip hop. Trabalhar juntos foi a primeira fronteira atravessada por esse pessoal.

“Essa rivalidade faz com que você se empenhe mais e mais no treino. É uma rivalidade saudável porque te força, você não quer perder. É um desafio saudável.”

Todo mundo saiu das suas cidades para se encontrar dentro de um ônibus e por três semanas quebram barreiras espaciais mas também das leis da física. Quando você menos espera, eles estão no ar, dando saltos mortais e impressionando o público.

A última fronteira transposta é a do tablado com o público. Terminada a batalha que divide o público em dois grupos de torcida, o público é convidado a aprender a dançar com os dançarinos. Um pouco de vergonha tem que ser superado, mas de repente falta espaço para tanta gente arriscando coreografias. Depois, cada um do público é convidado a apresentar sua própria maneira de dançar em um corredor animado. Como são dançarinos de cidades das regiões de Presidente Prudente, São José do Rio Preto e Campinas, eles se apresentam como se fosse em casa.

“A região da gente é sempre mais gostoso, a gente vai com mais energia porque todo mundo vai lá. E é um projeto novo, ninguém sabe como é. A nossa região tem um gosto especial. Já tá todo mundo perguntando como que é, falando que vai. Mas sempre com o mesmo objetivo de oferecer nosso melhor pro público.”

Escrito por:

Bárbara Carneiro

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