Este texto não deveria existir

Este texto não deveria existir, nem deveria ser eu, um homem, o autor.

Tomo essa liberdade com total clareza que posso errar feio, errar rude mesmo, pois escrevo sobre o que não posso compreender. Vou me pautar através das experiências das mulheres com quem convivo ou convivi, pois nelas eu confio o que escrevo. Além, é claro, nos testemunhos femininos colhidos no Roteiro 14 em sua passagem por Cajati, Cananéia e Juquiá.

14ZÃO para os íntimos

Das 46 pessoas integrantes do ônibus, 32 eram mulheres. Natural escrever sobre elas, mesmo entendendo que não deveria.

Lugar de mulher é onde ela quiser, isso já foi dito e é repetido em diversos lugares, até mesmo neste blog na entrevista realizada com as Damas de Ferro, em sua passagem pela Praia Grande no dia 29/4.

Não lhe parece óbvio? Sejamos francos, olhemos para todos os lados, inclusive para trás, para o passado, onde viveram Frida Kahlo e Ólga Benário, dentre tantas outras. Caso prefira, alguém mais próximo, conte com Elza Soares, minha mãe ou a sua… se puder, olhe-se no espelho. A possibilidade, desde a palavra, é feminina. Elas podem tudo, quando e onde quiserem.

Nas artes apresentadas nas ruas, inclusive.

Comecei esse texto em Juquiá, dia 7 de maio, terminando ele no último dia do Circuito, em São João da Boa Vista, terra natal de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu. Fora sua importância no cenário artístico literário, cênico, nas artes plásticas e de seu trabalho como jornalista, ela era comunista e foi a primeira mulher brasileira a ser presa por razões políticas. A primeira de 23 vezes. Conheci sua cidade pacata, de valores tradicionais… Dá para ter uma ideia do quanto causou essa moça de cabelos curtos e olhos moles, como disse o poeta modernista Raul Bopp, a quem Pagu deve seu apelido.

De Pagu às Damas de Ferro

Primeiramente, concordo Michele. São mulheres desse tempo, de Pagu às Damas de Ferro, que usam as roupas que querem, com brilho, com transparência, com cortes de cabelos diferentes, espalhafatosas, diriam os mais conservadores. Na real, eles dizem sem precisar falar. Com os olhos religiosos, moralistas, de quem espera um comportamento dito regular, típico de quem recebeu uma educação baseada no patriarcado, em que homens detêm o poder, o controle e o privilégio social sobre mulheres, atualmente reconhecidas, como belas, recatadas e do lar.

Quando essas mulheres se expõem dentro e fora de suas casas, quando partem para as ruas ocupando as praças e manifestando suas artes, muito mais que chocar alguns retrógrados, causam alvoroço nos mais diversos públicos.

Vimos isso nas participações das crianças nas mesas postas do espetáculo Espelho, do grupo OPOVOEMPÉ. Entre um texto e outro, as atrizes trocam ideias com o publico presente, feito um café servido na mesa da casa de seus avós. Havia sempre uma criança interagindo de igual para igual com todos, por vezes, com temas delicados como o sofrimento de um garoto que acumulou perdas em um curto espaço de tempo de sua vida. Também as crianças de Cananéia formaram uma roda de dança na apresentação Batuque a Cidade, da Cia. de Artes Baque Bolado formada por uma maioria de mulheres. Nesta mesma noite, após o show caloroso das Damas vindas do Rio de Janeiro, as crianças ficaram por um longo tempo em volta de cada integrante. Parecia que não queriam deixar aquele momento passar. Seguravam os instrumentos como quem ganha um presente. Não foi diferente para as artistas, como revelado no dia seguinte no bate-papo que tivemos em Juquiá.

Dessas crianças, às meninas.

Foi realmente mágico vê-las carregando o estandarte com o brasão da banda, indo e vindo, encontrando espaços no meio da muvuca enquanto o som rolava libertamente… Olhares de querência, de admiração e também identificação com aquilo que as cariocas faziam. Michele disse que o materno estava ali. Segura esse trombone…

Raquel complementa dizendo que a representatividade se fez presente pelo fator incomum para a cidade de terem mulheres protagonizando um show com instrumentos diferentes, podendo a banda se tornar uma referência para as meninas cananeenses.

As Damas Clarice e Bianca, respectivamente percussionista e trompetista, são as primeiras a se formarem em suas Universidades. Isso em 2017, nos lembra Simone.

Cynthia, idealizadora e coordenadora do projeto Cine Solar, pontua que além do palco, por traz dos bastidores muitas mulheres atuam para que a arte, seja ela qual for, se manifeste. São condutoras dessa comunicação que chega ao público, este aliás, com o feminino muito atuante.

Fez-se o exemplo, né Irene? É fato que o ato marca muito mais que o dito. Não se diz apenas: a mulher pode; ela faz, e faz agora.

Eu não queria falar nada, mas…

A partir do comentário feito pela atriz Paula Lopez, uma seguiu complementando a outra, no questionamento da pauta que sugeri.

Sabe, não rolou constrangimento, na real era aqui que devíamos chegar.

Paula disse que o espetáculo apresentado por ela e suas companheiras nas praças tratava de assuntos antes dados como para mulheres, mas que hoje isso não fazia sentido. São assuntos universais, não tem sexo, gênero. Serve ao indivíduo, não ao que possa defini-lo. Que sejam, definitivamente, quebradas as barreiras e os muros que determinam a desigualdade entre homens e mulheres. Entendam, escrevi desigualdade, não diferenças. Trata-se de respeito aos direitos, inclusive do direito de ser diferente. Que haja o bom senso na interpretação dessa frase.

Foi Natália quem ampliou o debate. Foi gentil e corajosa quando questionou a proposta dessa pauta. Disse que era importante para o momento, mas que não deveríamos parar nela, pois o ideal é que não tivéssemos que questionar a mulher na arte ou na rua e, novamente, em qualquer lugar.

“A gente batalha, a gente está fazendo tudo isso para que não precise… Que seja natural, orgânico a mulher em qualquer lugar, que não tenha mais necessidade dessa pauta”.

Nathália Moraes

Pois bem, Ana Luiza e Paula Possani jogam na roda o modo como o Grupo OPOVOEMPÉ  realiza suas apresentações. É feito um convite para que o público possa participar e, com isso, se expor. Contudo, realizam um trabalho de pesquisa para que ele não se sinta invadido, de maneira alguma. Sem imposição, entende?

O quanto esse modo de se colocar tem a ver com o que há de feminino? Elas não disseram que isso não seria possível de ser atribuído ao masculino, pelo contrário. Por ser cultural, que bom se esse, por assim dizer, princípio feminino estiver cada vez mais no universo masculino.

“Quem dera os homens também transitassem nesse lugar, da delicadeza, da não imposição.  Que não seja essa uma característica feminina, mas sim humana”.

Paula Possani

Homens, sejam mães. Esse lugar maternal, ao seu modo, pode ser de vocês. A maternidade não deve ser analisada apenas do ponto de vista biológico. O fator cultural está completamente envolto e, muitas vezes, é ignorado. Mais uma vez, Natália ampliando a discussão.

Como fizeram Lucia e Rosângela.

Em distintos momentos, ambas deixaram claro que são pessoas que precisam ser convencidas.  Não fazem nada por fazer. A verdade de cada uma as representa.

Lúcia respeita o tempo que precisa para que organize as informações até que se tornem autênticas. A partir disso, sente-se à vontade para oferecer sua arte. Ela conta que não se percebia uma mulher negra, até então, apenas uma pessoa negra. A avó que antes se negava a concorrer a vagas que exigiam boa aparência, tamanha agressão advinda do racismo, hoje fala com todo orgulho do mundo de sua neta chamada Soffia, uma menina pretinha linda que canta mandando na lata que não é exótica, nem bonitinha. É rainha.

A Congada de Rô abre caminhos. Na fogueira, comunica sua essência. Não teme multidões, mas o vazio sim. É preciso ter com quem trocar. Ela é da rua, vem da cultura tradicional popular, a qual, também por questões culturais, muitas vezes coloca o homem à frente das mulheres, mesmo elas exercendo as mesmas funções. Sua história contrapõe esse costume, pois aprende com mestres, mulheres e homens, com o mesmo respeito e, da mesma maneira, é respeitada. Ela canta sua toada e segura o maracá.

Elas me contaram tudo isso quando, com força e serenidade, falavam das bonecas Abayomis.

Nem mesmo as bonecas são as mesmas, quanto mais as minas.

Escrito por:

Claudio Eduardo

Comentários