Trilhos que carregam histórias

A estrada de ferro foi o embrião da cidade de Embu-Guaçu, em uma época em que pedir açúcar para o vizinho significava dar uma boa caminhada. Era uma casinha aqui e outra acolá. No meio de tanto mato tinha uma padaria, um restaurantezinho. Boteco e igreja eram a exceção, esses não faltavam. No começo a subestimaram, seu primeiro nome foi Ilha de Itararé. Tantos rios cortavam o lugar, que achavam que era uma grande ilha fluvial. Depois virou M’Boi Guassú, e, finalmente, Embu-Guaçu, que significa cobra grande, nome dado por causa do formato dos rios. Mas foi com a chegada da Estrada de Ferro Sorocabana, que fazia o trajeto de Mairinque/Santos, que a cidade mudou de verdade.

O senhor Hervé de Froberville veio da França para o Brasil logo depois da guerra, em busca de trabalho em um país que pudesse encontrar a paz que não encontrou em sua terra natal. “A guerra na Europa acabou destruindo muita coisa. Na minha cidade não sobrava nada. Pra mim foi uma enorme alegria chegar a um país que não tinha guerra e um país onde todo mundo vivia em paz e que tinha sorriso, carnaval, praia, era um deslumbramento.” – lembra Hervé. Morou no Rio e em São Paulo, mas foi em Embu-Guaçu que encontrou a tranquilidade que procurava.

Apesar de ter sofrido com a dificuldade de encontrar emprego e por não falar português, ele persistiu e hoje em dia já se considera mais brasileiro do que francês. Agora, já dominando a língua, contou como era a cidade 35 anos atrás. De vez em quando tropeça nas palavras, mas fecha os olhos por alguns instantes e logo retoma o que dizia. “Era tudo estrada de terra, era bem complicado. Eu fiz uma casinha no meio do mato, passei o fim de semana. Mas quando eu vi que a região era bem gostosa para morar, decidi ficar. No começo foi um pouco complicado morar no mato sem conhecer ninguém. Principalmente pelas estradas, que eram de terra com muita lama, às vezes não passava. Então ia fazer a compra e não conseguia voltar para casa e voltava a pé no meio da lama, era complicadíssimo.” Naquela época o trem fazia transporte de pessoas, Hervé conta que a viagem de quatro horas ia além de um simples transporte.

“Uma pequena história que é interessante e era uma espécie de costume. O pessoal fazia aniversário no trem. Como o trem descia em quatro horas até Santos, tinha o tempo suficiente para trazer um bolo e dividir entre todos os passageiros. Era muito interessante entrar nesse trem, sempre tinha um aniversário a festejar dentro do vagão, era muito simpática a descida.”

Era uma comemoração democrática, quem estava no trem participava da festa, “ficava todo mundo amigo, não era seletivo, quem estava no vagão participava do bolo, pegava um pedacinho e cantava os parabéns, era uma maneira de se distrair”, conta sorrindo. “Era bem gostoso descer devagarzinho a serra. Nos fins de semana o vagão enchia de turistas que desciam até Santos e no final da tarde voltavam com o trem de novo. Mas hoje em dia é só de carga, não tem mais o trem de passageiros.”

Foi com a construção da estrada de ferro que a família do educador Vaggner Jorge se formou. Seus pais vieram para Cipó, bairro da cidade, e moraram em um conjunto de cinco casas, que recebiam as famílias que trabalhariam na expansão da ferrovia. Foi na convivência com este grupo, conhecido como “a turma”, que surgiu o romance entre os dois.

Vaggner lembra que a chegada do trem foi muito importante para a cidade, “essa possibilidade de transporte, de turismo, era o marco”. Foram os trilhos que abriram as portas para seus pais e muitos moradores terem acesso aos estudos. “Não existia colégio aqui, meus pais precisavam pegar o trem pra estudar em São Vicente. Então tinha uma carteirinha estudantil, só entrava para o trem quem estava com a carteirinha. Minha mãe conta que ela não conseguiu terminar os estudos por causa de um colega travesso que pegou a carteirinha dela e lançou pela janela. Hoje ela conta isso até rindo.”.

As crianças adoravam fazer o passeio, para muitas era a oportunidade de ver o mar pela primeira vez, além de se deslumbrarem com a paisagem. “A gente saia, normalmente nos finais de semana, pela manhã, 7 horas, e regressava às 17 horas. Então era uma oportunidade das pessoas aqui desse bairro de conhecer a praia, por exemplo, além de passar por um caminho maravilhoso, natural, com cachoeira, o próprio túnel do trem.”, lembra o educador.

Atualmente a ferrovia continua ativa, transportando apenas cargas. Foram muitos anos carregando nos trilhos histórias que marcaram a vida de muitas pessoas, e estão até hoje em sua memória afetiva. “Eram sensações as quais a gente gostava, ainda mais na infância, era um caminho lento, mas era uma coisa que marcou bastante a infância.”, conclui Vaggner.

 
Texto: Juci Fernandes
Ilustração: Daniela Franbez

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