Ela chora no meu braço e eu choro no braço dela.

Foto: Angelita Borges

Percorrendo a estrada em meio a mata atlântica até chegar no Guaraú na Juréia, região do litoral sul do estado de São Paulo, é possível contemplar o verde, os diversos barulhinhos que saem da mata. Nessa calmaria, numa tarde chuvosa e horas de boa conversa com o senhor Ciro Xavier Martins, foi revelado um pouco de sua raiz na cultura caiçara.

Mestre Ciro, assim como é chamado, com seus 58 anos, mora em Peruíbe, é casado com uma caiçara e juntos têm três filhos. Representante cultural na cidade, nascido em Juréia município de Iguape, onde viveu até seus 37 anos, e após esse território se transformado em estação ecológica, mudou-se para Peruíbe em 1994.

É um tocador, conhecedor da cultura caiçara, começou a tocar em 1973, sendo canhoto aprendeu a tocar na viola do pai que não permitia que ele virasse as cordas, e desde então toca com as cordas trocadas. É autodidata, com um bom ouvido, toca todos instrumentos de corda, desde viola caipira de 10 cordas até a rabeca.

Conta saudoso que tocou Folia de Reis com o falecido irmão Pradel e demais foliões da época. E em passos curtos, pega uma viola que tem cravada “Ciro, Raízes da Juréia”, feita há 42 anos que era do seu tio, a verdadeira viola iguapeana, branca ou caiçara, que é feita da caixeta, árvore muito utilizada pelos caiçaras. Quando ele pega na viola diz emocionado “ela chora no meu braço e eu choro no braço dela”. E muitas histórias e vivências com a Folia de Reis, Fandango, Batido, Seringi, Passadinho, Recortado, Balanço, São Gonçalo e Baile de Viola.

Líder e membro do grupo Raízes da Juréia, viu ao longo dos anos a tradição e a sua cultura se esvair, sentindo a necessidade de mantê-las e passá-las para outras gerações, ensinando, promovendo e vivenciando, com sua viola, voz e danças de fandango. Num olhar longe exclama: “A cultura é coisa rica e deve ser passada adiante

Em alguns momentos que fica sozinho em casa, pega sua viola e toca horas a fio… Quem sabe é possível se ouvir junto com o tilintar das folhas da mata o som que sai de sua viola!

Escrito por:

Angelita Borges

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