Era minha primeira vez na barbearia. A atmosfera das antigas barbearias sempre me encantaram. E essa onda do renascimento repaginado desse tipo de estabelecimento me parece a segunda retomada mais interessante do passado que consigo imaginar agora. A primeira foi a do LP.

Antes de criar coragem observei Valentin fazendo barba e cabelo de seus clientes depois das 18h. A destreza e concentração na navalha correndo o pescoço do Claudio. O topete simétrico do menino acompanhado pelos pais. O adolescente que vem da cidade vizinha especialmente para cortar o cabelo com Valentin e sai com a autoestima renovada junto com o visual. Só depois desse muito observar marquei minha vez. Antes era preciso verificar a exceção. Em geral ele não corta cabelo de mulher. Descobri que não corta nem mesmo o da própria mulher, nem o da mãe, também cabeleireira.

A agenda dele está cheia nesse sábado. Ele topa, depois de ver a foto de referência do meu corte. Marcado para às 21h.

No sofá estilo vintage atrás de mim o Claudio e o Matheus esperam a vez e me assistem. Todos paramos no horário de jantar para um evento a parte ao Circuito Sesc de Artes em São José do Rio Pardo: a barbearia.

O Claudio já de barba feita quer agora cortar o cabelo. Nós incentivamos muito. O Matheus aguarda barba e cabelo, mas acaba cedendo a vez, conciliando a agenda de nós cinco: O barbeiro, eu, Claudio, Matheus e o trabalho.

Essa também é a primeira vez que vou ao cabeleireiro acompanhada de dois amigos homens – e héteros. Afobados apressavam o meu corte para terem a vez. Faziam piadas sobre os tufos de cabelos que minha visão periférica via no chão, para meu desespero. Sugeriam ajustes bizarros, como a máquina zero e o moicano.
Quando acabo o corte, aliviada de tudo ter ocorrido melhor do que o esperado, passada a tensão, revigorada de imagem nova a seguinte memória é desenterrada das profundezas da minha mente:

Quando criança o barbeiro vizinho, duas casa a direita de quem saía da casa da vó era o responsável pelo corte dos homens, das crianças e da vó, na minha família materna. Era um evento. Nem sempre tudo saía bem. Muitas vezes saíamos com pontas ou um tanto assimétricas. O Chanel era o melhor que se podia conseguir, com sorte.

Não era a primeira vez.

Na verdade algo de uma nostalgia e afetividade sempre me levaram a preferir cortar o cabelo em lugares que me lembravam esse lugar da infância.

Escrito por:

Michelle Magrini

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