Crônicas Absurdas #02 – O pequeno bailarino de Tietê

Quem inventou que uma apresentação de dança contemporânea foi feita para ser assistida e não dançada?

Uma lógica comum em nosso pensamento, vez ou outra é colocada em xeque pelo olhar descobridor das crianças. O Circuito Sesc de Artes em Tietê ofereceu a oportunidade dessas peças se reposicionarem, ou ao menos demonstrou que há desejo que isso ocorra.

Estávamos no meio da apresentação da Cia. Primeira Ato. O rodopio do bailarino fez um menino entender que seu corpo também é capaz deste movimento. Sentiu que era hora de testá-lo no espaço adequado para isso, ali onde os outros também faziam. Tomou o espaço cênico e a liberdade do contágio, girou desengonçado no ar, buscando o equilibrio com os braços e pousando de frente para sua família.

Pequenas pessoas, grandes gestos

A mãe assistia o espetáculo sem ver seu filho entrando nele. Ele, sem ter com quem compartilhar o feito e atrasado no andar da coreografia, cruzou o recuo de outro bailarino mas reafirmou o contato com os outros membros da Cia. realizando o passo que já havia praticado, o saltinho em 180° (ou pouco menos que isso), como quem diz – Pode deixar que essa parte eu já aprendi. O bailarino, que tratava em sua dança dos momentos de contato, sorriu em aceno ao menino e sublinhou o movimento de pernas que ele poderia testar em seguida. O menino atencioso esboçou a distribuição balanceada de peso para encenar o gesto, mas foi surpreendido pelo chamado da mãe, pedindo que voltasse ao lugar na plateia. Se aproximou da mãe e tentou reproduzir o que havia aprendido, certamente para que ela atestasse sua competência naquela performance e se despreocupasse. A situação estava sob controle, mas ainda assim foi puxado de volta pelo braço. Seu tamanho e velocidade ainda permitiram que se desvencilhasse e executasse mais dois saltinhos para dentro do andamento da coreografia. Foi pego no ar e trazido de volta no tropeço da mãe, desajeitada em meio ao trânsito dos bailarinos.

Ao menino, restou o último e mais legítimo argumento reservado à infância: chorou a plenos pulmões. Num berreiro contínuo, que representasse o tamanho daquela privação, que fosse um atestado a todos presentes de seu interesse em compartilhar daquele espaço e tempo em liberdade expressiva.

Sequer assistiu o resto da apresentação. Aparentemente havia entendido a apreciação desse espetáculo de uma maneira diferente das demais pessoas, que não quiseram dançar também. Apenas uma questão de interpretação.

Pouco depois que os soluços cessaram, foi levado novamente para o centro da apresentação. Desta vez buscado por um bailarino, deu as mãos ao resto do elenco, agradeceu a presença e as palmas do público junto dos colegas de dança. Aparentemente não compreendeu o significado deste lugar que acessou com tanta naturalidade. O espaço do reconhecimento e do aplauso.

O menino que, sem saber, havia descontruído centenas de anos de distância entre a arte e sua audiência apenas por não reservar seu desejo de fazer, voltou contente para a mãe que o abraçou pelo feito.

Escrito por:

Wagner Linares

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