Crônicas Absurdas #01 – Nirvana em Itu

Se perguntar entre os participantes da apresentação do Circuito Sesc de Artes em Itu, naquela noite fria de abril, poucos serão aqueles que não presenciaram o ocorrido com um senhor de cinquenta e tantos anos, de passo vacilante e fala embargada.

Os mais atentos averiguariam indícios de embriaguez em sua conduta, embora esta suposição se dê somente pela latinha de cerveja que carregou consigo o tempo todo que esteve ali.

–  Agora eu tô online, mas daqui a pouco eu vou ficar offline – comentou consigo mesmo por volta das 16h, segundo testemunhas que preferiram não se identificar.

Assistiu ao Chaplin, ouviu a contação de história duas vezes: na primeira riu, na seguinte chorou; não participou da oficina de bonecos de corda pois sentiu que lhe faltava destreza manual – Fica bonito, mas é difícil – disse aos ouvidos atentos.

Sentou-se junto ao Projeto Pergunta e levantou o seguinte questionamento ao povo de Itu:

Se houve resposta ao seu clamor, não saberemos.

Por fim, lá pelas 18h, deixou se contaminar pela Praga da Dança. Balançou os braços, dobrou os joelhos, fez pose de odalisca. De olhos fechados perdeu o tino, tomando a esquerda quando o mundo foi pra direita. No fim do espetáculo, quando o batuque da apresentação ecoava somente para si, assumiu a posição de lótus.

E ali permaneceu. De silêncio e contemplação fez sua presença.

E não restaram dúvidas para aqueles que o viram, encontrando a iluminação em meio ao passeio público. Permaneceu ali por mais tempo do que o frio da noite permitiria a qualquer outro.

Pouco depois sumiu sem que ninguém percebesse o rumo que tomou.

Desvaneceu na imaginação de quem o viu transitar entre as atrações do Circuito Sesc de Artes. Quem sabe na próxima visita à Itu sua presença não se materializa, ou se faz online como o próprio diria, entre nós novamente?

Escrito por:

Wagner Linares

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