A arte da margem em Tietê

Ao meio dia Reginaldo sentou no banco da praça da cidade do interior, tirou um calhamaço de sulfite azul de dentro da bolsa e começou a dobrar e recortar seus papéis.

Ele não escolheu a praça a esmo. Sabia do evento cultural que aconteceria ali mais tarde. Reginaldo e o Circuito Sesc de Artes estavam em Tietê, na região de Piracicaba.

O Dia Previsto

O coreto entre as palmeiras e o chafariz recebeu a estrutura da projeção da Fantástica Fábrica de Chocolate, as sorveterias despejavam crianças para participar do Gabinete de Habilidades e Curiosidades, a passagem de som garantiu a coexistência sonora entre missa e Circuito, o calor trouxe os curiosos para dar uma olhada no que acontecia na praça.

Na contação de causos inspirados no universo interiorano, o grupo Flor de Chita conduziu os que ainda estavam acanhados a ficar e conhecer mais daquilo que o Circuito Sesc de Artes havia trazido para sua cidade. O espetáculo de dança da Cia. Primeiro Ato ilustrou em sua coreografia a riqueza do olhar nos encontros cotidianos e o contato com o outro.

Entre o que veio e o que viria, vez ou outra Reginaldo levantava o olhar pra conferir as apresentações e os passantes. O sol estava posto e a dobradura começada ao meio dia havia sido concluída a pouco. Um vaso de flores em sulfite.

Morador de rua, ex-pirofagista de uma famosa companhia de circo, Reginaldo acompanha a agenda cultural das cidades do interior em busca do público que se interesse em adquirir sua arte. Esteve em Itu na semana passada durante o Circuito Sesc de Artes. Seu plano é conseguir chegar em Barretos a tempo da Festa de Peão. Ele percorre o caminho entre as cidades através de caronas com caminhoneiros, mas é comum que cruze estas distâncias a pé.

“A arte só faz bem para as pessoas. Aqui, em qualquer lugar, você não vê gente fazendo mal para os outros quando faz arte. Quando o povo gosta o povo compra mesmo. Mas quando não gosta o que a gente vai fazer? No fim do dia eu amasso e jogo fora, porque não dá para levar na bolsa, ninguém vai comprar o trabalho amassado. Se eu não vender, o único prejuízo que eu tenho é o sulfite. Não tem por que atrapalhar a vida de ninguém.” Reginaldo Batista

Os holofotes e as caixas de som chamam atenção ao próximo espetáculo. A apresentação de Circo dos Irmãos Zíngaros tomou a platéia para si e a multiplicou. Fez da praça o seu picadeiro e da audiência o que quis: riso, sarro e aplauso.

Após o encerramento com a exibição da Fantástica Fábrica de Chocolate pela Trupe Chá de Boldo,  o desfecho da passagem do Circuito Sesc de Artes por Tietê se deu com a surpresa em encontrar novamente a arte do Reginaldo, já adquirida pela bailarina da Cia. Primeiro Ato Ana Virginia Guimarães.

Reginaldo, como grande parte das figuras que eventualmente chamam a atenção em paralelo ao Circuito, já havia ido embora antes que as estruturas fossem desmontadas. Nossa ação cruza seu caminho, mas ele segue margeando o fluxo da arte e da cultura.

Escrito por:

Wagner Linares

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