Em 5 de Agosto de 1909, quis o destino que o nome de Cordeirópolis estivesse pra sempre acalcado nas linhas da história da música caipira.

Neste dia, na cidade ainda chamada “Cordeiro”, nascia João Baptista da Silva, compositor considerado pai do estilo Toada Histórica, onde uma declamação precede as melodias.

João Pacífico – como era conhecido, dada a sua surpreendente tranquilidade – soube achar a poesia entrincheirada em cada canto da vida. Dos primeiros versos de menino até as famigeradas parcerias com Raul Torres, o compositor sempre manteve-se discreto, mesmo no auge do sucesso. Faleceu aos 89 anos, em 30 de dezembro de 1998, deixando centenas de composições, muitas delas cravadas como sucesso. Em sua terra natal, por iniciativa de Vilma Peramezza (que sempre contribuiu com o cenário cultural da cidade), foi criada a Casa de Cultura João Pacífico, enquanto a Câmara Municipal instituiu a Medalha João Pacífico, oferecida a algumas personalidades.

E hoje, quando alguém planta na viola alguma nota assinada por João Pacífico, de certo colhe belas crônicas e melodias brejeiras, que contam a história de alguém – mas que, na verdade, poderia ser de todos -, tamanha identificação e capacidade de construção do autor.

E para as linhas deste ensaio, gentilmente cedidos pela Casa de Cultura João Pacífico, quatro poemas inéditos e não musicados nos aproximam da beleza e da riqueza da obra deste artista.

RESIGNAÇÃO

Jesus
Carregou a cruz pesada
Com as próprias mãos sangradas
Para depois nela morrer,
E perdoou
A ingratidão daquela gente,
Com um amor tão inocente,
Naquele infeliz sofrer.

E no caminho
Do calvário e da amargura,
Toda aquela desventura
Sofreu com resignação.
E eu
Vou sofrendo a minha dor
Perdoando aquele amor
Que iludiu meu coração

A minha cruz
É uma cruz diferente
Tenho que levar contente
E cumprir minha missão
A minha Cruz
É o peso de uma saudade,
Lembrança de uma amizade
Que trago no coração!

(João Pacífico, 1936)

FOI NO ROMPER DA AURORA

Foi no romper da aurora.
que meu sabiá foi embora,
bateu asas, não voltou.
E logo no outro dia
a malvada ventania
seu ninho também levou.
E as folhas do seu coqueiro
de tristeza amarelou.

Por que você foi embora,
deixando triste o coqueiro
e hoje ao romper da aurora
não cantas mais no terreiro?
Não cantas mais no terreiro?

Você fez tal a cabocla
que foi embora e me deixou
Fiquei com saudade louca
porque o resto ela levou!
porque o resto ela levou!

(João Pacífico, 1935)

TRISTE SERENATA

Esta valsa pura,
guardo com ternura
no meu coração.
É uma lembrança
e foi uma ilusão.

Lembro a janela,
e o rostinho dela
olhando pra mim.
E sorrindo ouvia
esta melodia
que era bem assim.

E na partitura
guardo essa figura
sempre em meu olhar
E quando solvejo
tenho mais desejo
quero mais lembrar…

Triste serenata,
madrugada ingrata
foi um sonho me fim!
E a saudade insiste
pra deixar mais triste
a melodia assim…

(João Pacífico, 1976)

ORAÇÃO DO PEQUENO LAVRADOR

Enquanto sua voz
espalhava no planalto,
com a faixa sobre o peito
falando à multidão,
eu ajoelhava
no cantinho do meu quarto,
em frente ao oratório
onde guardo meu São João.

A ele eu pedia
com uma vela acesa
no rancho mais humilde
onde mora este roceiro,
que ilumine sempre
seus passos com firmeza,
é outro João Batista,
é hoje o padroeiro.

Agora que nós temos
outro João neste país,
abraço essa viola
canto em forma de oração.
Faço deste caboclo
o roceiro mais feliz,
fazendo o chão mais verde,
mais verde este sertão.

Não  quero nada mais
que dois bois e um arado,
não quero lhe pedir
o gigante de um trator
Eu quero uma semente
pra plantar no meu roçado,
fazer o Brasil mais rico,
SOU PEQUENO LAVRADOR!

(João Pacífico, 1979)
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Texto: André Romani
Foto: Acervo Casa de Cultura João Pacífico

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